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Os Santos Evangelhos

“Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse à autoridade da Igreja Católica”, Santo Agostinho – (Contra epistulum Manichæi quam vocant fundamenti, 5,6: PL 42,176).

Etimologia

Literalmente, evangelho significa “boa mensagem”, “boa notícia” ou “boas-novas”, derivando da palavra grega ευαγγέλιον, euangelion (eu, bom, -angelion, mensagem).

A palavra grega “euangelion” deu também origem ao termo “evangelista” para a língua portuguesa.

Os evangelhos são um gênero de literatura do cristianismo primitivo que contam a vida de Jesus Cristo, a fim de preservar seus ensinamentos ou revelar aspectos da natureza de Deus. O desenvolvimento do cânon do Novo Testamento deixou quatro evangelhos canônicos, que são aceitos como os únicos evangelhos autênticos para a maioria dos cristãos. Entretanto, existem muitos outros evangelhos. Eles são conhecidos como apócrifos e foram escritos geralmente depois dos quatro evangelhos canônicos. Alguns destes evangelhos deixaram vestígios importantes na tradição cristã, incluindo a iconografia. (A iconografia, do grego “Eykon”, imagem, e “graphia”, descrição, escrita  é uma forma de linguagem visual que utiliza imagens para representar determinado tema).

Género único na literatura universal

Os evangelhos são um género único na literatura universal. Não são meros relatos, mas também um convite à adesão ao cristianismo. A sua primeira intenção não é a biográfica. Apresentam Cristo como Messias, filho de Deus e salvador da humanidade. Contém coleções de discursos, de parábolas, milagres, curas, profecia, testemunhos e relatos, como o da paixão de Cristo e sua ressurreição.

Evangelhos canônicos

Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João são chamados evangelhos canónicos por serem os únicos que o cristianismo primitivo admitiu como legítimos e hoje integram o Novo Testamento da Bíblia, sendo também os únicos aceitos pelos grupos que sucederam. As igrejas cristãs só aceitam estes quatro evangelhos como tendo sido inspirados e fazendo parte do Cânon. As igrejas cristãs, católica, ortodoxas e protestantes tem na Bíblia, incluindo os evangelhos, a base de sua fé e de sua prática.

O Evangelho de Mateus foi escrito para convencer os judeus de que Jesus era mesmo o Messias que estava por vir, por isso enfatiza o Antigo Testamento e as profecias a respeito desse ungido.

O Evangelho de Marcos (discípulo de Pedro) foi escrito para evangelizar principalmente os romanos, e relata somente quatro das parábolas de Jesus, enfatizando principalmente as ações de Jesus.

O Evangelho de Lucas foi escrito para os gentios (não-judeus), enfatizando a misericórdia de Deus através da salvação por Jesus Cristo, principalmente para os pobres e humildes de coração.

O último dos evangelhos, o de João, foi escrito para doutrinar os novos convertidos. Não cita nenhuma das parábolas de Jesus (afinal, as parábolas já eram conhecidas no meio cristão, através dos relatos contidos nos outros evangelhos), porém combate com firmeza as primeiras heresias surgidas no princípio do cristianismo, como por exemplo: o gnosticismo (que negava a verdadeira encarnação do Filho de Deus) e outras seitas semelhantes, que também negavam a divindade de Jesus Cristo.

A Leitura do Evangelho na Missa

O lado do Evangelho localiza-se à esquerda do celebrante quando este se encontra de frente para o altar.

Dentre os elementos do espaço celebrativo, os fundamentais são: o altar, a mesa da Palavra (ambão), o espaço da assembleia e a cadeira da presidência.

Destacamos neste artigo o ambão, de onde “são proferidas somente as leituras, o salmo responsorial e o precônio pascal; também se podem proferir a homilia e a oração dos fiéis”, conforme a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR),  número 309.  A mesma Instrução nos diz que “A dignidade da Palavra de Deus requer na Igreja um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra”.

A palavra “ambão”  deriva do grego anabaino, que significa “subir”, “estar em posição elevada”, ou “de onde Deus fala”.  É um espaço pleno de sentido simbólico-sacramental, lembrando-nos a presença viva do Senhor que fala ao seu povo. Por isso, é um lugar reservado às leituras bíblicas. Os avisos, comunicados e a direção do canto devem ser feitos em outra estante, de preferência do lado oposto ao do ambão.

Evangelhos apócrifos

Centenas de outros evangelhos foram escritos na antiguidade, que são chamados evangelhos apócrifos. Entre os manuscritos encontrados no Egito, conhecidos como os da Biblioteca de Nag Hammadi, figuram os evangelhos atribuídos a apóstolos de Cristo: o evangelho de Tomé, o evangelho de Filipe, o evangelho de Pedro e o evangelho de Judas. Contêm também o evangelho de Maria.

Pseudos Evangelhos Contemporâneos

Nos dias atuais ainda são escritos evangelhos ou releituras deles, como O Evangelho segundo o Espiritismo(é um livro espírita francês de autoria de Allan Kardec, foi publicado em Paris em 15 de abril de 1864). O Evangelho segundo Jesus Cristo (é um romance do escritor português José Saramago que conta a história da vida de Jesus de uma maneira moderna e crítica da religião, lançado em 1999), ou mesmo textos romanceados embasados na vida do Jesus histórico como Operação Cavalo de Troia (É uma série literária, composta por nove livros e escrita pelo espanhol J. J. Benítez. A obra mescla temas históricos (a vida de Jesus) com ficção-científica (a viagem no tempo) e mostram “dossiês” que narram uma missão da Força Aérea dos Estados Unidos na qual um módulo chamado “O Berço” é levado ao passado com o propósito de comprovar a existência de Jesus Cristo).

São Francisco e os Santos Evangelhos

São Francisco parte do Evangelho, para reconstruir a vida, e parte da vida, para confrontar-se com o Evangelho. Esta opção e escolha não seria apenas viver o Evangelho, acolhê-lo em sua vida, mas também anunciá-lo aos seus irmãos.

Novamente, em seu Testamento, Francisco escreve: “E depois que o Senhor me deu irmãos, o Senhor mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do Santo Evangelho” (Test. 4,14).

Francisco tinha clareza quanto à sua missão: o primeiro movimento é acolher a palavra de Deus, embeber-se dela, aprofundá-la na vida, confrontar-se com ela, para ser luz no caminhar e vigor no viver. E depois, levá-la e transmiti-la ao povo de Deus.

E assim, seu dinamismo missionário impele-o a ir ao encontro de todos os homens. Diante do envio e da missão, ele sente a paixão que tem pelo anúncio da Boa Nova (Extraído do livro “Francisco, um encanto de Vida”, Editora Vozes).

Os Quatro Símbolos dos Evangelhos

No livro de Ezequiel temos a figura de Jesus representada em quatro retratos. Ele é descrito como LEÃO, BOI, HOMEM E ÁGUIA. Ez 1,10 cf. 10,14.

O numero quatro na bíblia representa a totalidade da criação.

  • São quatro seres e cada um com quatro rostos e quatro asas (Ez 1, 4-12).

. Quatro Evangelhos,

  • Os quatro limites da terra (Is 11, 12),
  • Os quatro ventos (Ez 37, 9),

. As quatro regiões das criaturas (Ap 5, 13),

. Os quatro cavalheiros do Apocalipse (Ap 6, 1-8),

  • As quatro plenitudes do amor de Deus: A largura, o comprimento, a profundidade e a altura (Ef 3, 18).
  • Quatro pontos cardeais,
  • Quatro estações do ano,

. Quatro colunas recobertas de ouro, assentadas sobre quatro bases de prata e quatro cores da cortina do Tabernáculo: Branco, púrpura, azul e escarlate (Ex 26, 31-37).

. Quatro vezes “Aleluia”: No NT, só em Apocalipse (Ap 19. 1- 6).

  • Quatro tipos de fé:
  1. Pouca fé, (Mt 14, 31). 2. Fé normal, (Mt 9,22). 3. Muita fé (Mt 8, 10). 4. Grande fé (Mt 15, 28).

. As quatro virtudes cardeais:

  1. Prudência 2. Temperança 3. Fortaleza 4. Justiça.

Virtudes cardeais quer dizer virtudes centrais, fundamentais, orientadoras. É o mesmo que virtudes morais. São quatro como quatro são os pontos cardeais, as estações do ano, os lados da cruz, os alicerces da casa, os pés da mesa e da cama. A quaternidade para Jung (*) é símbolo da perfeição. Eis as virtudes:

Dessa forma, esses quatro animais revelam a plenitude terrena de Cristo. Como Cristo era quando se fez carne e habitou entre nós.

Como foram atribuídos os símbolos dos quatro Evangelhos? A arte cristã sempre representou cada evangelista por um ser vivente: São Mateus é simbolizado por um homem; São Marcos, por um leão; São Lucas, por um bezerro; e São João, por uma águia.

O fundamento desses ícones é bíblico. O livro do Apocalipse de São João, por exemplo, traz a visão de quatro seres viventes que rendiam glória a Deus:

“O primeiro animal vivo assemelhava-se a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno voo. (…) Não cessavam de clamar dia e noite: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar.” [1].

Os mesmos quatro animais estão em outra visão do profeta Ezequiel:

“Distinguia-se no centro a imagem de quatro seres que aparentavam possuir forma humana. (…) Quanto ao aspecto de seus rostos tinham todos eles figura humana, todos os quatro uma face de leão pela direita, todos os quatro uma face de touro pela esquerda, e todos os quatro uma face de águia.” [2].

Mas, afinal, por que esses quatro animais foram identificados com os evangelistas? O primeiro autor cristão a utilizar essa analogia foi Santo Irineu de Lião [3], seguido por Santo Agostinho [4]. Os dois, no entanto, associaram os animais aos evangelistas de forma diferente da que se usa hoje, posto que a ordem dos Evangelhos, no começo da Igreja, ainda não estava bem definida.

Foi São Jerônimo quem começou a tratar os evangelistas da forma como são tratados hoje. São Gregório Magno explica com clareza por que referenda a sua atribuição:

“Que na verdade estes quatro animais alados simbolizam os quatro santos evangelistas, é o que demonstra o próprio início de cada um destes livros dos evangelhos. Mateus é corretamente simbolizado pelo homem porque ele inicia com a geração humana; Marcos é corretamente simbolizado pelo leão, porque inicia com o clamor no deserto; Lucas é bem simbolizado pelo bezerro, porque começa com o sacrifício; João é simbolizado adequadamente pela águia, porque começa com a divindade do Verbo, dizendo: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus’ (Jo 1, 1), e assim tem em vista a substância divina, fixando o olhar no sol à maneira de uma águia.”

Na mesma homilia, o Papa e doutor da Igreja vai ainda mais fundo na meditação da profecia de Ezequiel: “Mas, já que todos os eleitos são membros do nosso Redentor e o próprio nosso Redentor é a cabeça de todos os eleitos, através daquilo que simboliza os seus membros nada impede que neles todos ele também seja simbolizado. Assim, o próprio Filho Unigênito de Deus se fez verdadeiramente homem; ele se dignou morrer como bezerro como sacrifício de nossas redenção; ele, pelo poder de sua força, ressuscitou como leão.”

“Conta-se que o leão dorme até mesmo de olhos abertos, assim, o nosso Redentor pela sua humanidade pôde dormir na própria morte, e pela sua divindade ficou acordado permanecendo imortal. Ele também depois de sua ressurreição subindo aos céus, foi elevado às alturas como uma águia. “

“Portanto, ele é inteiramente para nós, seja nascendo como homem, seja morrendo como bezerro, seja ressuscitando como leão, seja subindo aos céus como águia.”

“Mas, (…), estes animais simbolizam os quatro evangelistas e ao mesmo tempo, através deles, todas as pessoas perfeitas. Falta-nos então demonstrar como cada um dos eleitos se encontram nesta visão dos animais”.

“De fato, cada pessoa eleita e perfeita no caminho de Deus é seja homem, seja bezerro, seja leão, seja águia. De fato o homem é um animal racional. O bezerro é o que se costuma oferecer em sacrifício. O leão é a mais forte das feras, como está escrito: ‘O leão, o mais bravo dos animais, que não recua diante de nada’ (Pr 30, 30). A águia voa para as alturas, e sem piscar dirige seus olhos aos raios do sol. Assim, todo o que é perfeito na inteligência é homem. E quando mortifica a si mesmo e a concupiscência deste mundo é bezerro. É leão porque, por sua própria e espontânea mortificação, tem a fortaleza da segurança contra todas adversidades, como está escrito: ‘O justo sente-se seguro e sem medo como um leão’ (Pr 28, 1). É águia porque contempla de forma sublime as coisas celestes e eternas. Sendo assim, qualquer justo é verdadeiramente constituído homem pela razão, bezerro pelo sacrifício de sua mortificação, leão pela segurança da fortaleza, águia pela contemplação. Assim, através destes santos animais, se pode simbolizar cada um dos perfeitos.” [5].

Agradeçamos a Deus pelo envio de Seu Verbo, manifestado a nós pelo dom de um “Evangelho quadriforme”, como diz Santo Irineu de Lião, lembrando sempre que nenhum livro é capaz de conter Jesus Cristo [6].

Pe. Inácio José do Vale

Professor do Curso Bíblico Aplicado

Referências e Bibliografia

(1).      Ap 4, 7-8.

(2).      Ez 1, 5.10. Trata-se de uma visão provavelmente influenciada pela cultura assíria – lembrar que, nessa época, o povo de Deus estava exilado na Síria –, que tinha o Lamassu, um touro com cabeça de homem, patas de leão e asas de águia, como divindade protetora.

(3).      Contra as Heresias, 3.11.8.

(4).      O Consenso dos Evangelistas, 1.6.9.

(5).      São Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel, 4.1-2.

(*) Carl Gustav Jung  (1875-1961),  foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos e o inconsciente coletivo.

http://www.avemaria.com.br/pagTexto/revista-ave-maria/29-amesadapalavra/29

BARBAGLIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos. São Paulo: Loyola, 1990.

MORUJÃO, Geraldo. O que são os Evangelhos? São Paulo: Quadrante, 1992.
PÉREZ, Félix Garrondo. Itinerário bíblico para ler e entender a Sagrada Escritura, São Paulo: Loyola, 1998.

 

Sobre o autor

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