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Tréplica a Lucas Banzoli: A Igreja Católica criou as universidades

Figura1TRÉPLICA A IGREJA CATÓLICA CRIOU AS UNIVERSIDADES

Ou tem gente que ainda insiste

Rogério Fernandes da Silva[i]

Esta é uma pequena resposta a réplica de Banzoli para um artigo[ii] meu no Logos Apologética. A contestação do Lucas começa com a afirmação de que não sou ninguém, desconhecido: ‘“Rogério Fernandes da Silva”, que ninguém conhece e nem sabe quem é, elaborou uma “refutação” ao meu artigo sobre a Igreja Católica e a criação das universidades’.[iii] Realmente sou desconhecido, apesar de ter sido moderador de algumas páginas no Facebook nunca gostei de me apresentar. Trabalho nelas com protestantes e nunca entramos em conflito. Cada um sabe de suas convicções e sabe que lutamos pelo Evangelho, contra o secularismo, o esquerdismo diário, contra a descristianização de nosso país. Contudo prefiro que meus argumentos se mostrem e não minha a pessoa, então, não necessito aparecer em pendengas apologéticas qualquer. Afinal, ser famoso na Internet é igual a ser rico de banco imobiliário.

Na réplica o argumento é que só 5% do que escrevo realmente trato do caso “A Igreja Católica criou universidades”, me admira haver uma “resposta”, pois se toco tão pouco no assunto, uma pequena porcentagem não me incomodaria tanto ao ponto de respondê-la. Outra coisa que me chamou a atenção, estranhamente a figura do Conde e de Emerson aparecem no site (ele apenas me emprestou o veículo), sendo que o artigo me pertence, por que atacá-los? Não há necessidade.

Então, vamos tratar dessa tréplica. O problema inicial é o triunfalismo protestante do Banzoli que na réplica vem escancarado. Porém, triunfalismo religioso não existe na história da ciência.  Certamente as regiões protestantes contribuíram significativamente para o desenvolvimento da ciência, mas isso não implica que os católicos ficaram para trás. Cabe também dizer que a revolução científica do século XVII deve-se também a matriz medieval escolástica. Sendo assim, por que muita gente insiste no triunfalismo? Talvez por falta de conhecimento.

O estudo da história do desenvolvimento da ciência moderna no ocidente está ligado ao desenvolvimento da religião cristã. Isso deveria ser mais estudado nos cursos de graduações de História, no Brasil. Infelizmente nossos professores ainda sofrem de um marxismo vulgar herdado da década de 80, do século XX. Odeia-se a religião e odeia-se conhecê-lá  para enriquecer as aulas. Lembro na graduação, na aula de Colônia I, em que o professor, ao ser perguntado sobre uma questão do texto que havíamos lido não soube respondê-la. O texto era sobre a França Antártica, e o autor havia sugerido que uma das causas do fracasso do empreendimento francês era a querela entre os colonos sobre a transubstanciação.  Uma colega protestante perguntou o que era esse conceito católico e o professor não soube explicar. Nos cursos de História, a um ranço antirreligioso motivado pelo marxismo vulgar hegemônico em nossa cultura acadêmica. Essa pequena estória é uma introdução ao que vou discuti neste texto.

Para a refutação uso declaradamente como base dois capítulos do livro do professor Ronald Numbers: “Galileu na Prisão e outros mitos sobre ciência e religião”.  Neste livro vários pesquisadores especialistas em história debatem vários mitos antirreligiosos, os autores são reconhecidos como especialistas sobre história da ciência. Mas vamos ao corpo do texto que interessa:

Sobre a UNESCO[iv] ter declarado que a madrassa al Quaraouiyine como universidade já dei a resposta, mas deixo aqui o que escreve Grant

a madrassa era essencialmente uma escola para o estudo das ciências religiosas e temas a elas subordinados e relacionados. Excluídas de seu currículo estavam as ciências estrangeiras, ou seja, as ciências filosóficas e naturais. (Edward Grant, p. 123 e 124).

As universidades são um fenômeno europeu do século XII, portanto, isto é história da ciência e não um jogo de quem tem mais razão. Algumas considerações na qual faço minha tréplica, segundo Banzoli:

  • o fato de que a Igreja Romana NÃO criou as universidades; 

Essa alegação foi respondida por Haskins e Grant no corpo do primeiro artigo, só para lembrar:

Se a Igreja Católica não criou (no pior dos casos), pelo menos apoiou, supervisionou, padronizou, deu aval e subsidiou. As universidades têm seu núcleo inicial nas guildas medievais de estudantes e professores. Isso na renovação cultural dos séculos XII (HASKINS, 2015, p. 20). Os imperadores e os Papas deram legitimidades a essas instituições, e por muitas vezes gerenciaram os conflitos entre os estudantes e a população local, muitas vezes belicoso […].

Precisamos de uma introdução, muitos pensam que a Idade Média, momento de hegemonia cultural da Igreja Católica no Ocidente como um momento nenhuma produção científica e presa a leitura do Evangelho. Inclusive pesquisadores recentes, pouco acostumados a pesquisa as fontes tendem a esse erro. Talvez esses pesquisadores tenham a série Cosmo como fonte de pesquisa (SHANK, 2012, p. 36). O período medieval gerou as universidades. Em 1500 havia na Europa, cerca de sessenta (60) universidades espelhadas pelo continente, 30% do currículo delas era voltado para temas e textos sobre o mundo natural (Idem, p.38). Se a Igreja medieval pretendeu desencorajar ou suprimir a ciência, não há dúvida de que cometeu o erro colossal, ao tolerar – para não dizer apoiar – a universidade (Idem, p. 38). Algumas características dessas universidades católicas; nem todo mundo era religioso. Muito não tinham requisitos para estudar a teologia. Devido às querelas entre universidades, os estudantes das artes liberais não eram autorizados a trata de temas religiosos. Nem todas as universidades tinham faculdades de teologia (Idem, p.39).

Seria arrogância ou triunfalismo se mostramos a trajetória de alguns cientistas católicos que surgiram nessas universidades? Nenhum dos dois se for o caso de apresentar ao público sujeitos que eles geralmente desconhecem. Pessoas como William de Saint-Cloud, pioneiro na utilização da câmara escura para observação de eclipses. Dietrich Von Freiberg, dominicano, deu a solução para o problema dos arco-íris primários e secundários. Em Paris, Jean Buridan utilizava teoria de ímpeto para explicar o movimento dos projeteis. Nicole Oresme, bispo, argumentou em favor da possível rotação da Terra.

  • o fato de que o ensino nestas universidades era em grande parte atrasado e, em muitos casos, até mesmo errado.

Existe um livro, na literatura anglo-saxônica, chamado History of the Conflict between Religion and Science (1874) que é responsável pela divulgação de certos mitos anticientíficos e anticatólicos. Acabou influenciando gerações e percebemos que seus mitos influenciam diversos autores. Não é necessária a leitura do livro para percebemos que os mitos já são repetidos no senso-comum. William Draper era um anticatólico, herdeiro do ódio inglês do tempo da Reforma Anglicana. Sua principal acusação é que a Igreja, ou os católicos, não contribuíram para a ciência. Aliás, para Draper, os católicos combateram ao surgimento da ciência. que fique claro que Banzoli não utilizou diretamente Draper no seu texto. Entretanto, uso Draper como exemplo para mostrar que  certas acusações não novas e a muito foram postas ao chão.

Gastaríamos páginas escrevendo sobre as influências do catolicismo no desenvolvimento da ciência ocidental. Podemos apresentar rapidamente alguns, como o médico flamengo Joan Baptista Van Helmont (1579-1664); o microscopista Marcello Malpighi (1628-1694), que foi o primeiro a observar os capilares na circulação sanguínea; temos Niels Stensen, pioneiro no trabalho de fósseis (1638-1686); o padre Pierre Gassendi (1592-1655) que recupera antigas ideias atômicas; O frade Marin Mersenne (1588-1648), cuja obra influenciou outro católico, Descartes (1596-1650); etc.

Os católicos patrocinaram personalidades individuais, como também instituições científicas. Na Itália eram financiadas por devotos. A Academia dei Lincei, em Roma, 1603, e a Academia Del Cimento,em Florença, em 1657, essa em especial, juntou muitos experimentalistas e ex-alunos de Galileu (PRINCIPE, 2012, p. 130). As ordens religiosas também proporcionaram oportunidades para o estudo da filosofia natural. O monge beneditino Benedetto Castelli (1578-1643) este foi aluno de Galileu. Ainda temos a Companhia de Jesus, que em 1625 tinha 450 colégios na Europa e outros continentes (Idem, p. 131). Em 1700 os jesuítas eram responsáveis pela maioria das cátedras de Matemática por todas as universidades europeias. Omiti diversos outros nomes para não ficar uma literatura muito longa, em suma, não havia decadência no ensino das universidades católicas. O ensino era vigoroso, forte e visionário. Até na Real Sociedade de Londres, protestante, em 1660, tinha como membros alguns católicos, como sir Kenelm Digby (1603-1665), que manteve forte correspondência com católicos da França, Itália e outras paragens (Idem, p. 130).

Os historiadores modernos da ciência reconhecem as impressionantes contribuições da Alta Idade Média, isto é antes dos adventos do protestantismo. Os católicos contribuíram para a revolução científica, as observações de ótica, cinemática, astronomia, matéria e de outros campos forneceram a base para o desenvolvimento que veio a seguir. A instituição medieval das universidades, o desenvolvimento da cultura da argumentação, e o rigor lógico da teologia escolástica, esses três ajudaram a criar um clima propício para que houvesse a revolução científica dos séculos XVI e XVII (Idem, p.132).

Porém, lembrando que a ciência moderna é um fruto, em igual medida, de católicos e protestantes. Ambos contribuíram para a revolução científica.

Agora volto a algumas considerações sobre texto que TENTOU me replicar. Uma das tentativas é sobre o Padre Fleury, eu desconheço essa afirmação justamente por NÃO ser um jansenista, mas um católico verdadeiro. Ué, jansenistas são o que? Budistas?

Um historiador moderno procura ter uma critica as fontes, não é porque a testemunha tenha sido ocular ou próxima a época que consideramos a fonte como fidedigna e única representação do passado. Basta ver que nos tempos atuais há um movimento chamado Historiadores pela Democracia, que abraçaram o discurso de Golpe o Impeachment de Dilma Rousseff, numa luta ideológica pela memória do Tempo Presente. Até historiadores podem construir uma visão estereotipada de fenômenos próximos historicamente. Não existe fonte pura, até fonte testemunhal sofre influências. Cabe ao historiador dá a melhor versão possível aos acontecimentos. Um historiador prova algo? Como se história não é uma ciência empírica? Complicado, ou talvez impossível para um historiador provar alguma coisa. Podemos dar versões plausíveis, baseados em fontes primárias e secundárias, analisadas de maneira critica.

Outra afirmação sem cabimento é que: porque eu fiz questão de usar um PADRE CATÓLICO no meu artigo. Por favor, isso é que é falácia, uma pessoa, mesmo do clero, por se intitular de católico que vive conforme a fé? A História nos mostra que não. Voltaire era católico e chamava a Igreja de a Infame, peguemos o exemplo atual e brasieliro, Frei Betto é um católico e suposto religioso e não é nenhum exemplo de catolicidade. Pode-se, então, usar o argumento: “viu os católicos não vivem sua fé”, ora também tivemos protestantes que não viveram e nem por isso apontamos o dedo.

O texto aqui não é para acusar ninguém, mas para mostrar que a historiografia moderna contradiz mito de que as instituições da Igreja estavam atrasadas em relação aos protestantes. Alister McGrafth e Peter Harrison possuem opiniões diferentes sobre as causas, e mesmo outros historiadores também têm, não há consenso sobre os motivos do aparente número maior de cientistas protestantes na revolução científica. O certo é que católicos e protestantes contribuíram para as ciências (assim como os muçulmanos), não é uma competição de que fez mais, afinal, quando cito Whitewead no início de meu artigo-tese, segundo o autor, da ciência é a teologia medieval (ora católica). Nenhum autor, nenhum historiador moderno jamais dirá, sem passar vergonha na academia, que a universidades católicas eram atrasadas.

Esse negócio de atraso das universidades católicas, só para reforçar, é balela triunfalista e infantilóide, mesmo porque nomes de católicos como Galileu, Alberto Magno, Tomás de Aquino, Copérnico, Johannes von Gmunden, John Peckham, William de Ockham, Nicolau de Cusa, etc, reforçam a noção da contribuição do catolicismo para o nascimento da ciência moderna ocidental. Não estamos dizendo que as universidades protestantes são melhores ou piores, pois a ciência é contínua e se alimenta do legado do passado, assim como de trocas entre cientistas. A ciência não é um vento isolado, ela é um programa progressivo e também um processo cumulativo (Kuhn, 2011, p.77).

Bibliografia

GRANT, Edward. História da Filosofia Natural: do mundo antigo ao século XIX. São Paulo: Masdras, 2009.

HARRISON, Peter (org.). Ciência e Religião. São Paulo: Ideias & letras, 2010.
HASKINS, Charles Homer. A Ascensão das Universidades. Balneário Camboriú: Livraria Danúbio Editora, 2015.

KÜHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. 11ªed. São Paulo: Perspectiva, 2011.

PRINCIPE, Laurence. Os católicos não contribuíram para a produção científica. In: NUMBERS, Ronald L (org.). Galileu na Prisão: e outros mitos sobre ciência e Religião. Lisboa: Gradiva, 2012.

MCGRATH, Alister. Fundamentos do diálogo entre Ciência e Religião. São Paulo: edições Loyola, 2005.

SHANK, Michael. A Igreja medieval impediu o desenvolvimento da ciência. In: NUMBERS, Ronald L (org.). Galileu na Prisão: e outros mitos sobre ciência e Religião. Lisboa: Gradiva, 2012.
[i] Professor de História da rede pública, licenciado em História, especialista em História do Brasil (ambos pela UERJ). Mestre em Ciências da Religião (PUC-SP) e Doutorando em Humanidades, Culturas e Artes (UNIGRANRIO).

[ii]Disponível em: < http://logosapologetica.com/resposta-lucas-banzoli-igreja-catolica-criou-as-universidades/#axzz4JLJ16fw9>. Acesso em 10/09/2016.

[iii] Disponível em: <http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2016/09/resposta-ao-logos-apologetica-igreja.html>. Acesso em 10/09/2016.

[iv] Não encontrei os critérios da UNESCO para dizer que está foi a primeira universidade, no máximo pareceu que al Quaraouiyine é um patrimônio cultural da humanidade. Disponível em: <http://whc.unesco.org/en/list/170/>. Acesso em 10/09/2016.

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