A Bíblia relata que Jesus foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia e apareceu aos discípulos — e agora uma nova pesquisa sugere que um texto de quase 2.000 anos pode guardar o mais antigo relato não cristão sobre esse evento.
Trata-se do Testimonium Flavianum, passagem das Antiguidades Judaicas, escrita pelo historiador judeu Flávio Josefo por volta de 93–94 d.C. — ele não era cristão, o que torna o texto ainda mais valioso. O manuscrito original não sobreviveu, mas chegou até nós através de cópias em diferentes idiomas.

O pesquisador independente Jesús Fernández-Pedrera Correa analisou quatro linhas de transmissão: grego, latina, árabe e siríaca. Descobriu que as versões latina, árabe e siríaca apresentam uma redação mais próxima do original: no texto árabe, por exemplo, a aparição é descrita como algo que os discípulos relataram — não uma afirmação direta de que a ressurreição ocorreu.
Já a versão grega, que se tornou a mais conhecida, diz: “Ele apareceu-lhes vivo novamente no terceiro dia, tendo os profetas divinos predito isto” — uma formulação que reflete alterações posteriores. Fernández-Pedrera conclui que o texto original registrava o que os seguidores afirmavam ter visto, e não uma declaração de Josefo próprio. Com o tempo, o relato de testemunhas foi transformado em afirmação de fato.
Para responder, pesquisadores analisaram as diferentes versões que chegaram até hoje — em grego, latim, árabe e siríaco. E o mais impressionante: dois estudos independentes, publicados com poucos meses de diferença, chegaram ao mesmo núcleo central, ainda que por caminhos distintos. Cada um, com método próprio, reexaminou o texto e chegou a conclusões que estão transformando a forma como compreendemos essa fonte histórica fundamental. A seguir, apresentamos o que cada um descobriu — e por que, apesar de abordagens diferentes, ambos convergem no que mais importa.
O texto em questão: o Testimonium Flavianum, escrito por Josefo em ~93 d.C. — a principal fonte não cristã sobre Jesus Estudo A (Fernández-Pedrera, 2026): comparou 4 versões → concluiu que frases de declaração direta foram acrescentadas; original relatava o que os discípulos diziam Estudo B (Schmidt, 2025/2026): analisou estilo e 5 versões → concluiu que o texto é autêntico, mas a linguagem era ambígua e foi mal lida O ponto de convergência: ambos afirmam que Josefo não inventou nem endossou a ressurreição — ele registrou que os discípulos já a pregavam no século IConclusão: A ressurreição se baseia nas testemunhas oculares (1 Coríntios 15), não em Josefo. Mas é notável que um historiador externo já documentasse essa crença tão cedo
3. O que os DOIS concordam — o mais importante! ✅
- Josefo mencionou Jesus em 93 d.C. — não é invenção
- Jesus foi crucificado por Pôncio Pilatos
- Os discípulos afirmavam tê-Lo visto vivo após a morte
- Josefo não era cristão e não declarou a ressurreição como fato — relatou a crença dos seguidores
- A crença na ressurreição já existia no século I, não surgiu depois
O pesquisador independente espanhol Jesús Fernández-Pedrera Correa comparou quatro versões antigas do texto:
- Grega — a mais conhecida, que diz que Jesus ressuscitou e cumpriu profecias
- Latina (séc. IV)
- Árabe (séc. X)
- Siríaca (séc. XII)
O estudo foi publicado como preprint em 15 de agosto de 2026 e ganhou destaque na imprensa no fim de outubro.
O que é a nova interpretação deste estudo
A contribuição original do pesquisador é esta:
As versões latina, árabe e siríaca preservam um estágio anterior do texto, em que Josefo não afirmou que Jesus ressuscitou — mas sim registrou o que os discípulos afirmavam ter visto. Ou seja: ele relatou a crença deles, sem endossar como fato.
Exemplo da diferença central:
- Versão grega (copiada/alterada): “Ele apareceu vivo no terceiro dia, como os profetas divinos haviam predito…” → afirmação direta
- Versão árabe (mais próxima do original?): “Os discípulos relataram que ele lhes apareceu vivo…” → relato de uma afirmação alheia
O pesquisador também aponta:
- A frase “ele era o Cristo/Messias” foi acrescentada depois — nas versões latina, siríaca e árabe aparece como “foi considerado/creu-se o Messias”, não como afirmação
- A referência a profecias cumpridas é linguagem de pregação cristã, improvável de um autor judeu não cristão
- A frase sobre Jesus ser “mais que um homem” está ausente na versão árabe, indicando que foi adição posterior
- A parte final sobre a continuidade dos cristãos é a mais provável de ser autêntica, pois todas as versões concordam
Como transformar o “argumento dos ateus” em fortalecimento da fé
Quando alguém disser “Viu? Alteraram o texto!”, responda assim:
1. “Alteração” confirma que o núcleo é antigo
O próprio fato de existirem quatro versões diferentes (grega, latina, árabe, siríaca) com variações mostra que o texto não foi inventado do nada por um copista. O núcleo central — Jesus, Pôncio Pilatos, crucificação, discípulos que afirmavam ressurreição — persiste em todas. Se fosse fraude completa, todas diriam a mesma coisa.
2. Relato de “alegação” é MAIS histórico, não menos
Se Josefo tivesse dito “Ele ressuscitou de fato”, seria suspeito — um judeu não cristão declarando fé cristã? Estranho demais. Agora, ele registrar: “os discípulos dizem que O viram” — isso é exatamente o que um historiador neutro faria. Confirma que a crença na ressurreição já existia no século I, não surgiu depois.
1 Coríntios 15:6, escrito ~20–25 anos após a crucificação, já lista 500 testemunhas. Josefo, em 93 d.C., confirma que essa afirmação era pública e conhecida — exatamente como os apóstolos pregavam.
3. Orígenes já dizia isso no século III!
O estudo não descobriu algo novo — Orígenes, escritor cristão do séc. III, já registrou que Josefo não aceitava Jesus como o Cristo. Isso é conhecido há 1.700 anos. O que o estudo faz é recuperar a camada original antes das ampliações teológicas.
4. A ressurreição não depende de Josefo
A evidência primária da ressurreição são as testemunhas oculares (1 Coríntios 15:3–8), não um historiador externo. Josefo confirma que o movimento existia e fazia essa afirmação — o que é exatamente o ponto de partida da fé.
Há séculos, uma das mais fascinantes e debatidas passagens da história antiga desperta curiosidade e controvérsia: o Testimonium Flavianum, o trecho sobre Jesus escrito pelo historiador judeu Flávio Josefo por volta de 93–94 d.C. Por gerações, estudiosos questionaram: seria autêntico? Teria sido alterado por escribas cristãos? Ou seria uma invenção completa?
O Dr. Tom Schmidt, professor da Universidade de Fairfield e autor do livro Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ, apresenta uma pesquisa inovadora que reescreve a compreensão desse texto fundamental. Em entrevista ao programa Digging for Truth, ele revela por que o famoso trecho é muito mais confiável historicamente do que se imaginava — e o que ele realmente diz sobre Jesus de Nazaré.

Quem Foi Flávio Josefo? — O Homem e Seu Tempo
Para compreender a importância de Josefo, é preciso primeiro conhecer quem ele foi:
- Nascido em Jerusalém por volta de 30 d.C., em uma família sacerdotal de elite, descendente de sumos sacerdotes e reis
- Aos 19 anos, tornou-se fariseu; aos 20, começou a servir no Templo
- Aos 25, foi enviado como diplomata a Roma, para encontrar a própria imperatriz
- Aos 30, foi nomeado general e governador da Galileia — região onde Jesus desenvolveu grande parte de seu ministério
- Após a guerra judaico-romana, viveu sob a proteção do imperador Vespasiano, dedicando 20 a 25 anos à escrita da história do povo judeu
Sua proximidade com Jerusalém e a Galileia — nas décadas imediatamente posteriores à vida de Jesus — coloca-o em uma posição única: ele viveu no mesmo ambiente, conheceu as mesmas pessoas e circulou nas mesmas camadas sociais que estiveram envolvidas nos eventos narrados nos Evangelhos.
Josefo escreveu quatro grandes obras:
- Antiguidades Judaicas — história do povo judeu desde a criação até ~65–67 d.C. (onde aparece a passagem sobre Jesus)
- A Guerra Judaica — relato da revolta contra Roma
- Contra Apião — defesa do judaísmo
- Vida — autobiografia
Por muito tempo, seus escritos foram lidos em paralelo com a Bíblia, como a principal fonte externa para compreender o mundo do Novo Testamento.
O Passagem Controversa — O Que Diz e Por Que Foi Questionada
No Livro 18 das Antiguidades Judaicas, Josefo menciona Jesus em meio a uma lista de distúrbios ocorridos sob o governo de Pôncio Pilatos. A versão conhecida em grego afirma que Jesus fazia obras admiráveis, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia e cumpriu as profecias.
Por que estudiosos duvidaram por tanto tempo? Quatro razões principais:
Tabela
| Objeção Tradicional | Resposta da Nova Pesquisa |
|---|---|
| O texto parece excessivamente favorável ao cristianismo para um judeu não cristão | A linguagem foi mal interpretada — é ambígua, não confessional |
| O estilo não corresponderia ao de Josefo | Análise demonstra que cada frase combina com seu estilo |
| Padrões de transmissão sugerem acréscimos | Versões antigas em latim, siríaco e árabe revelam o sentido original |
| Padres da Igreja antiga não citaram a passagem | Havia motivos estratégicos para não citá-la, como explica Orígenes |
A Chave: Reinterpretação, Não Falsificação
A grande descoberta de Schmidt é que não houve alteração fraudulenta — houve leitura equivocada ao longo dos séculos. Ele detalha três pontos centrais:
1. “Ele era o Cristo” ou “Era considerado o Cristo”?
- A versão grega diz: “Ele era o Cristo”
- Mas a versão latina de Jerônimo (~393 d.C.) e a versão siríaca de Jacob de Edessa registram: “Ele foi considerado/teve por Cristo”
- Estas versões precedem os manuscritos gregos que possuímos — preservam o sentido original: Josefo relatou a crença alheia, não a sua própria
2. “Obras Maravilhosas” — Positivo ou Ambíguo?
- A palavra grega usada é paradoxa — algo espantoso, extraordinário, mas neutra
- Josefo usa o mesmo termo em contextos negativos em outras obras (ex.: feitos dos magos do Faraó)
- Não significa milagre divino — significa algo de origem indeterminada: poderia ser divino, poderia ser demoníaco
- A frase “se é lícito chamá-lo homem” também não é exaltação — expressa dúvida sobre a natureza daqueles poderes
- Um escriba cristão nunca escreveria isso: a Igreja lutava para afirmar a humanidade e divindade de Jesus, não para questionar
3. “Apareceu-lhes Vivo” — Afirmação ou Relato?
- O verbo grego usado pode significar “pareceu” tanto quanto “apareceu”
- Josefo emprega a mesma construção gramatical em outros trechos para indicar percepção alheia, não fato confirmado
- Exemplo: ao relatar a história de José e seus irmãos, usa a mesma estrutura para dizer que a túnica ensanguentada parecia indicar morte — sem ser verdade
- Aplicando ao Testimonium: “pareceu a eles haver ressuscitado” — Josefo registra a crença dos discípulos, não a confirma como fato
“Não é uma confissão de ressurreição. É um relato histórico de que os discípulos criam na ressurreição — algo que um historiador judeu do século I realmente escreveria.” — Dr. Tom Schmidt
A Conexão Pessoal: Josefo Conhecia Quem Julgou Jesus?
O aspecto mais revolucionário da pesquisa vai além da linguagem: Josefo conhecia pessoalmente pessoas envolvidas no processo de Jesus. Schmidt demonstra que:
Anás e Anano — Ligação Direta
- Anás (Anano) é mencionado nos Evangelhos como sumo sacerdote em cuja casa Jesus foi levado na noite da prisão
- Seu filho, Anano II, foi comandante militar de Josefo na Galileia
- Josefo conviveu diretamente com ele — alguém que pertencia à casa onde Jesus foi julgado
- Na noite da Páscoa, por lei judaica, Anano II deveria estar na casa do pai — o mesmo local para onde Jesus foi levado
- Ou seja, o homem mais próximo de Josefo poderia ter testemunhado ou ouvido diretamente sobre os acontecimentos daquela noite
Tiago, o Irmão de Jesus
- O mesmo Anano II ordenou o julgamento e execução de Tiago, irmão de Jesus, em 62 d.C.
- O fato causou tal revolta que os romanos o removeram do cargo
- Josefo conhecia em primeira mão não apenas a figura de Jesus, mas o impacto contínuo de seu movimento através de eventos públicos e controversos
Gamaliel e Simão — Outra Linha de Conexão
- O apóstolo Paulo estudou sob Gamaliel, líder do Sinédrio
- Josefo conhecia Simão, filho de Gamaliel, que estudou com o pai na mesma época
- Simão também teria estado presente ou próximo dos eventos relacionados ao julgamento
- Josefo foi traído por Simão e por Anano II — ambos descendentes de famílias que se opuseram a Jesus, o que explica sua postura neutra e não hostil
Conclusão: O Que Isso Significa para Nós
Tabela
| Pergunta | Resposta |
|---|---|
| O Testimonium é autêntico? | ✅ Sim, com a linguagem corretamente interpretada |
| Josefo confirmou a ressurreição? | ❌ Não — registrou que os discípulos afirmavam tê-Lo visto vivo desde o terceiro dia |
| A crença na ressurreição surgiu depois? | ❌ Não — Josefo confirma que existia desde o início, em meados do século I |
| Josefo tinha fontes confiáveis? | ✅ Conhecia pessoalmente participantes diretos dos eventos |
| Isso prova a fé? | Confirma o cenário histórico: a alegação da ressurreição nasceu com as testemunhas, não décadas depois |
“O relato dos discípulos não foi algo que surgiu anos ou gerações depois. Foi algo que aconteceu ao terceiro dia e que eles pregaram desde então.” — Dr. Tom Schmidt
A pesquisa de Schmidt não transforma Josefo em cristão. O que faz é restaurar sua voz original: um historiador judeu, não cristão, que, com base em fontes próximas e confiáveis, registrou que Jesus existiu, fez coisas extraordinárias, foi crucificado sob Pôncio Pilatos e que seus seguidores afirmavam tê-Lo ressuscitado — uma crença que, desde o primeiro século, já era conhecida, debatida e documentada fora do círculo dos crentes.
O livro Josephus and Jesus está disponível gratuitamente em josephusandjesus.com, graças à doação de um apoiador.
Referências
- Entrevista com Dr. Tom Schmidt, Digging for Truth episódios 272/273, Associates for Biblical Research, 16 de novembro de 2025
- Schmidt, T.C. Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ, 2025
