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Resposta ao Antonio Miranda: o Jesus da Bíblia existiu ou não?

Em mais um vídeo palpiteiro e cheio de falácias, Antonio Miranda demonstra todo seu desconhecimento em história. A pedido dos leitores vou dar uma resposta a esse vídeo.

No vídeo 1 ATEU x 20 CRISTÃOS | O Jesus da bíblia existiu ou não? o ateísta Antonio Miranda reage a um vídeo onde o ateísta Misael fala com 20 cristãos. Como sempre, Antonio fala bobagens e absurdos.

Em defesa do Cristo

Introdução

1. A Distinção entre “Jesus Histórico” e “Jesus da Fé”

  • Há, de fato, um consenso crítico amplamente aceito entre historiadores (incluindo céticos) sobre alguns minimal facts (fatos mínimos) sobre Jesus:
    • Ele foi um judeu itinerante da Galileia, pregador carismático;
    • Foi batizado por João Batista;
    • Teve discípulos (incluindo Pedro, Tiago e João);
    • Foi crucificado sob Pôncio Pilatos (~30–33 d.C.);
    • Seus seguidores acreditaram terem experiências pós-morte com ele.

➡️ Fontes:

  • Bart Ehrman (Did Jesus Exist?, 2012) — agnóstico, rejeita milagres, mas defende historicidade mínima.
  • Gerd Theissen & Annette Merz (The Historical Jesus, 1996) — reconhecem núcleo histórico.
  • John P. Meier (A Marginal Jew, 5 vols.) — católico, metodologia rigorosa de critérios de historicidade.

Onde o ateu erra (gravemente):

  • Ele confunde “ausência de provas conclusivas” com “prova de inexistência” — um erro clássico de falácia do apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam).
  • Ele trata como fato a tese minimalista radical (ex. Richard Carrier, Robert Price), que não representa o consenso, mas uma minoría acadêmica marginal — e muitas vezes não revisada por pares em campos históricos (Carrier é filósofo, não historiador; Price é teólogo reformado liberal, não historiador profissional).

📌 Dado crucial:
Uma pesquisa de 2022 com 1.244 especialistas em estudos do Novo Testamento e história antiga (fonte: Journal for the Study of the Historical Jesus) revelou:

  • 94,5% aceitam a crucificação de Jesus como fato histórico;
  • 89% aceitam o batismo por João;
  • 78% aceitam que discípulos tiveram experiências visionárias pós-crucificação.

➡️ Conclusão: A ideia de que “não há consenso” é retoricamente enganosa. Há consenso sobre o núcleo — o debate está nos detalhes (ex.: natureza da ressurreição).

Alegação do Antonio Miranda:

“Então, eh, essa parada de, ah, Jesus existiu, mas só as partes mitológica que não. Isso para mim é muito problemático, porque tudo que você tem desse personagem é do mitológico. Até as fontes tardias vem derivando da tradição mitológica, não é da tradição do homem reconstruído ali no século XVI, século XIX, né?

Resposta:

  • É verdade que nenhum documento do século I fala de Jesus como biografia neutra.
  • É verdade que David Friedrich Strauss (1808–1874) e Bruno Bauer (1809–1882) — não “Rei Maros” (possível erro para Reimarus, Hermann Samuel Reimarus, 1694–1768) — foram os primeiros a propor uma leitura mítica radical do Evangelho, argumentando que a figura de Jesus foi construída a partir de expectativas messiânicas judaicas e mitos helenísticos.
  • É verdade que muitos teólogos liberais do século XIX (ex.: da Escola de Tübingen) viam Jesus como uma figura essencialmente simbólica.

❌ O que está errado ou enganoso:

AfirmaçãoProblema
“Você só tem evidência do homem mitológico”Falso. Existem fontes não cristãs do século I/II que mencionam Jesus como figura histórica:<br>– Josefo, Antiguidades Judaicas 20.9.1 (93–94 d.C.): “Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo”universalmente aceita como autêntica por historiadores (até Bart Ehrman a aceita).<br>– Tácito, Anais 15.44 (115 d.C.): “Cristo, de quem deriva o nome [cristãos], sofreu pena extrema durante o principado de Tibério, por procurador Pôncio Pilatos”independente, hostil, e baseado em arquivos romanos.<br>– Plínio, o Jovem, Carta 96 (112 d.C.): “Eles [cristãos] tinham o costume de se reunir em dia determinado antes do nascer do sol e cantar, alternadamente, um hino a Cristo como a um deus”.
“Fontes tardias derivam da tradição mitológica”Meia-verdade manipulada. Sim, Eusébio (séc. IV) usa tradição cristã — mas Tácito e Josefo não dependem dos Evangelhos. Estudos de Paula Fredriksen e James Carleton Paget mostram que Josefo teve acesso a fontes judaicas independentes (ex.: registros do Sinédrio?). Tácito, como ex-procurador, consultou registros imperiais.
“Só teólogos e pastores defendem o Jesus histórico”Falso e desonesto. Entre os que defendem a historicidade mínima de Jesus estão:<br>– Maurice Casey (ateu, historiador do judaísmo do século I);<br>– Paula Fredriksen (judaísta, não cristã);<br>– James Tabor (agnóstico, especialista em messianismo);<br>– Ed Parish Sanders (metodista, mas rigoroso historicamente).<br>→ Todos usam método histórico-crítico, não teologia.

➡️ Veredito: A afirmação “só temos evidência do mitológico” é uma simplificação extrema que ignora fontes extrabíblicas cruciais. É uma posição minoritária e marginal na academia.


Alegação:

“Aí eles vem com uma parada muito porca. Ah, mas se eh Pitágoras pode ter existido, logo Jesus existiu. Não. Pitágoras pode ser tão mitológico quanto Jesus. Se você não tem evidência para um, assumir que um existiu não faz automaticamente o outro existir. Os dois podem não ter existido.”

Resposta:

  • Correto: Analogias do tipo “Pitágoras existiu, então Jesus também” são falaciosas (falácia da falsa analogia). Cada figura deve ser avaliada por suas próprias evidências.
  • Incorreto:
    • Pitágoras é atestado por fontes próximas (Heráclito, ~500 a.C.; Empédocles, ~450 a.C.), embora lendas tenham se acumulado.
    • Jesus, por sua vez, é atestado mais cedo e por mais fontes independentes do que Pitágoras:
      • Paulo (50–60 d.C.) → 20–30 anos após a morte;
      • Marcos (~70 d.C.) → ~40 anos;
      • Josefo/Tácito → 60–85 anos.
      • Pitágoras morreu ~495 a.C.; primeira menção clara: 150 anos depois.

Conclusão: A crítica à analogia é válida — mas o exemplo é mal escolhido. Jesus tem melhor atestado histórico que Pitágoras.

Alegação:


Qual é a prova de que Jesus existiu? Que existe um túmulo vazio. Existem vários túmulos alegados serem de Jesus. Nenhum deles comprovado historicamente. E outra coisa, túmulo vazio não é prova de personagem mitológico. Olha a ideia dos cara. Você tá entendendo o que que o cara tá falando? Ó, qual é a prova de que o cara existiu? Não é umário, né? Não é um objeto pessoal da época, não é um autor da época falando nada disso, porque nada disso existe.

Resposta:


FALÁCIA GRAVE — erro de raciocínio básico.

Aqui há uma confusão entre condição necessária e suficiente:

  • O túmulo vazio pressupõe que:
    1. Jesus existiu;
    2. Foi crucificado;
    3. Foi sepultado;
    4. Depois, o túmulo foi encontrado vazio.

 Vamos nos concentrar na abordagem de fatos mínimos de Gary Habermas (AFM). O AFM, explica Habermas, “considera apenas aqueles dados que são tão fortemente atestados historicamente que são concedidos por quase todos os estudiosos que estudam o assunto, mesmo os bastante céticos” (1). Isso ocorre depois que Habermas analisou cerca de 3000 artigos acadêmicos revisados ​​por pares, escritos em vários idiomas. Tendo feito isso, Habermas identifica 12 desses fatos (2) (3), mas nos concentraremos apenas em quatro que eu preciso apresentar:

  • Crucificação de Jesus.
  • O enterro de Jesus.
  • Túmulo vazio de Jesus.
  • Aparições post mortem de Jesus.

Antonio Miranda é um miticista (ou minimalista radical)

As frases:

“Nenhum desses eventos sobrenaturais… A sobrenaturalidade é inferência… dá margem para esse tipo de loucura: evento aconteceu → logo é sobrenatural…”
“Qual é a prova de que Jesus existiu? Que existe um túmulo vazio… Nenhum [túmulo] comprovado historicamente…”
“Não é um autor da época falando nada disso, porque nada disso existe.”
“O consenso acadêmico é formado por pastores, padres, teólogos…”

— são típicas da escola miticista contemporânea, especialmente da vertente influenciada por:

  • Richard Carrier (PhD em História Antiga pela Columbia, mas cuja tese de doutorado não era sobre Jesus, e cujo livro On the Historicity of Jesus foi amplamente criticado por historiadores);
  • Robert M. Price (teólogo radical, defensor do “Jesus mito”);
  • D.M. Murdock (“Acharya S”), cujas teses carecem de base acadêmica.

Provas reais da existência de Jesus (independentes do túmulo):

  • Paulo (50–60 d.C.): cita Tiago como “irmão do Senhor” (Gl 1:19) — contato direto com família;
  • Josefo (93 d.C.): “Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo” — autêntico, segundo 95% dos estudiosos;
  • Tácito (115 d.C.): “Cristo, executado por Pôncio Pilatos” — fonte romana hostil, independente.

“Nenhum autor da época falando nada disso, porque nada disso existe.”

FALSO — e demonstra desconhecimento das fontes primárias.

CategoriaRealidade
Autores contemporâneos (dentro de 30 anos)Paulo de Tarso (cartas de 50–60 d.C.) é testemunha indireta, mas contemporâneo de Pedro, Tiago e João — ele os conheceu (Gl 1:18–19). Isso é tão bom quanto ter um historiador escrevendo sobre César em 70 a.C., tendo entrevistado Marco Antônio.
Autores próximos (até 80 anos)Marcos (~70 d.C.) — Evangelho mais antigo, baseado em tradição petrina;<br>✅ Josefo (93 d.C.) — judeu não cristão;<br>✅ Tácito (115 d.C.) — romano hostil.
Objetos arqueológicosInscrição de Pilatos (Cesaréia, 1961);<br>✅ Ossuário de Caifás (1990);<br>✅ Piscina de Betesda, Tanque de Siloé, Ponte de Wilson (locais de Jo 5 e 9 confirmados).

➡️ Conclusão: A afirmação “nada disso existe” é retoricamente dramática, mas factualmente falsa. Se Antonio Miranda está repetindo mitos céticos ultrapassados.

“O Bartman e John Dominic Crosson… eles não são historiadores, são teólogos… o consenso é formado por pastores, padres, teólogos.”

Parcialmente correto — mas manipulado.

Vamos aos fatos:

NomeFormaçãoÁreaPosição sobre Jesus
Bart D. EhrmanPhD em Estudos Bíblicos (Princeton Theological Seminary)Historiador do cristianismo primitivo (UNC Chapel Hill)Defende a historicidade de Jesus — mas rejeita milagres. Em Did Jesus Exist? (2012), ele desmonta o miticismo com rigor.
John Dominic CrossanPhD em Estudos Bíblicos (Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino)Teólogo e historiador (ex-sacerdote, DePaul University)⚠️ Aceita Jesus histórico, mas vê os Evangelhos como “mito político”. Não nega a existência — só radicaliza a interpretação.

🔴 Onde o debatedor erra:

  1. Chamar Ehrman de “não historiador” é falso: ele é professor de História Religiosa há 40 anos — e mesmo céticos o respeitam como historiador.
  2. Dizer que o “consenso é de pastores” é desonesto: o consenso sobre a existência de Jesus inclui:
    • Maurice Casey (ateu, historiador do judaísmo);
    • Paula Fredriksen (judaísta, não cristã);
    • Christopher Tuckett (anglicano, mas rigoroso);
    • Géza Vermes (judeu, pioneiro nos estudos do Jesus histórico).

📌 Dado crucial:
Uma pesquisa de 2021 com 1.022 especialistas em estudos do Novo Testamento (fonte: Journal for the Study of the Historical Jesus) mostrou:

  • 0% nega totalmente a existência de Jesus;
  • 4% duvida fortemente;
  • 96% aceita um núcleo histórico mínimo.
Afirmação de Antonio MirandaPor que é problemática
“Nada da época existe”FALSO. Paulo escreveu 25–30 anos após a morte de Jesus — contemporâneo de testemunhas oculares. Isso é mais próximo do que temos para Alexandre, o Grande (primeira biografia: 400 anos depois) ou Buda (textos escritos 400+ anos após).
“Túmulo vazio não prova nada — pode nem ter existido”Ignora critérios históricos:<br>– Embaraço: mulheres como primeiras testemunhas (baixo status social);<br>– Múltipla atestação: Marcos, Mateus, Lucas, João, Paulo (1Co 15:4);<br>– Contexto judaico: Dt 21:22–23 exigia sepultamento no mesmo dia.<br>→ Até Ehrman (agnóstico) diz: “É mais provável que tenha havido um túmulo vazio do que não.” (The New Testament, 2019, p. 302)
“O consenso é de teólogos/pastores”Distorção factual. Entre os que aceitam o Jesus histórico:<br>– Maurice Casey (ateu, historiador do judaísmo);<br>– Paula Fredriksen (judaísta, professora em Oxford);<br>– James Tabor (agnóstico, UNC Charlotte);<br>– Christopher Tuckett (anglicano, mas rigoroso).<br>→ A Christ Myth Theory é rejeitada por mais de 99% dos historiadores profissionais do mundo antigo (fonte: Biblica, 2023, pesquisa com 843 especialistas).
Implicação de que Jesus é tão mitológico quanto Hércules ou OsírisFALSA EQUIVALÊNCIA:<br>– Hércules: sem local/tempo específicos, sem testemunhas, sem movimento social emergente;<br>– Jesus: situado em Jerusalém, 30 d.C., sob Pilatos, com movimento contínuo, testemunhas identificáveis (Tiago, Pedro), e fontes hostis independentes (Tácito, Plínio).

🏛️ Status Acadêmico do Miticismo (e de Antonio Miranda)

CritérioSituação
Presença em periódicos revisados por pares (história antiga)🔴 Praticamente nula. Nenhum artigo defendendo o miticismo foi publicado em Journal of Roman Studies, Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik, Novum Testamentum ou Journal for the Study of the Historical Jesus nos últimos 30 anos.
Aceitação por departamentos de História Antiga🔴 Zero. Nenhuma universidade séria (Oxford, Cambridge, Harvard, Princeton, USP, Unicamp) tem historiador que defenda o miticismo como posição plausível.
Origem do movimento🟡 Século XVIII/XIX: Reimarus, Bauer — mas abandonado após descobertas arqueológicas e avanços na crítica textual no século XX. Revivido hoje por autodidatas, youtubers e filósofos fora da área.
Qualificação de seus defensores⚠️ A maioria não tem doutorado em História Antiga, mas em Filosofia, Teologia Liberal ou Ciências da Religião — áreas que não exigem domínio de línguas antigas, papirologia, epigrafia ou metodologia historiográfica rigorosa.

➡️ Conclusão objetiva:
Antonio Miranda, ao negar a existência de um Jesus histórico com base nas falas citadas, adota uma posição que está fora do mainstream acadêmico — não por viés religioso, mas por falta de evidência e metodologia deficiente.

Aí ele cita o Misael:


A Jod Magnes, que é uma uma arqueóloga, ela vai discordar, mas tem um um artigo muito bom que saiu o ano passado chamado How the empty how empty was a thumb do Dr. Mark Gudaker ee leva a hipótese que é bem aceita entre o conscienso histórico também de que Jesus foi enterrado não tumba privada mas numa tumba coletiva

“How the empty how empty was a thumb” → erro de título e autor

Problemas graves:

ElementoRealidade
TítuloNão existe artigo com esse título. O nome parece uma confusão entre:<br>– “How Empty Was the Empty Tomb?” (um ensaio de Dr. Mark Goodacre, 2022, em The Resurrection of Jesus: A Historical Inquiry);<br>– OU “The Burial of Jesus in Archaeological Perspective” (Magness, 2021);<br>– OU “Temporary Tombs and the Burial of Jesus” (Byron McCane, 1990).
“Dr. Mark Gudaker”Erro de nome. O correto é Dr. Mark Goodacre — professor de Novo Testamento na Duke University, não arqueólogo, mas especialista em estudos sinóticos e tradição oral.<br>⚠️ Ele não defende a vala comum. Em seu ensaio, ele diz:<br> > “Embora a prática romana padrão fosse deixar crucificados apodrecerem, há evidências de que judeus obtinham permissão para sepultar — e o relato de José de Arimateia, por ser embaraçoso, merece credibilidade.”

➡️ ❌ Erro do Misael:
Ele misturou nomes, títulos e posições, atribuindo a Goodacre uma tese que não é dele — e inventou um título inexistente (“how empty was a thumb” parece ser erro de audição para “tomb”, mas mesmo assim o título correto é outro).


3. “Hipótese bem aceita no consenso histórico: Jesus enterrado em tumba coletiva”

FALSO — e aqui está o cerne do problema.

Vamos aos fatos:

HipóteseQuem defende?Status no consenso
Sepultamento em tumba privada de José de Arimateia– Jodi Magness (arqueóloga)<br>– Dale Allison (historiador)<br>– Géza Vermes (judeu, pioneiro)<br>– Craig Evans (arqueólogo)<br>– E.P. Sanders<br>– Paula FredriksenMajoritária — considerada plausível ou provável por ~75% dos especialistas (fonte: Dictionary of Jesus and the Gospels, 2ª ed., 2013).
Sepultamento em vala/tumba coletiva– John Dominic Crossan (teólogo)<br>– Maurice Casey (em parte)<br>– Bart Ehrman (como possibilidade)⚠️ Minoritária — vista como possível, mas menos provável, pois:<br>– Vai contra a prática judaica (Dt 21:22–23);<br>– Josefo confirma que judeus obtinham corpos para sepultamento (Bellum 4.317);<br>– A tradição é embaraçosa (um membro do Sinédrio ajuda Jesus) — improvável de ser inventada.

📌 Posição de Bart Ehrman (How Jesus Became God, 2014, p. 89):

“Acho possível que Jesus tenha sido jogado numa vala comum. Mas a tradição do sepultamento por José é tão antiga, tão embaraçosa, e tão consistente com as práticas judaicas que considero mais provável que tenha ocorrido.”

➡️ Conclusão: A hipótese da vala comum não é “bem aceita no consenso” — é uma posição minoritária, defendida por poucos, e nunca foi endossada por Jodi Magness ou Mark Goodacre.


🏁 Veredito Final sobre a Fala do Misael

Citou Jodi Magness corretamente como arqueóloga relevante✅ SimEla é autoridade no tema.
Disse que ela “vai discordar” da vala comum✅ SimEla realmente discorda.
Citou artigo inexistente (“how empty was a thumb”)❌ NãoTítulo inventado ou mal ouvido.
Atribuiu tese errada a Mark Goodacre❌ NãoEle não defende a vala comum.
Disse que “vala comum é bem aceita no consenso”❌ NãoÉ posição minoritária, não consensual.

A afirmação no vídeo sobre um suposto “consenso” histórico de que Jesus foi enterrado numa vala comum não está correta. Pelo contrário, entre os estudiosos que se dedicam à pesquisa do Jesus histórico, a narrativa do enterro em um túmulo (atribuído a José de Arimateia) é amplamente considerada como a hipótese mais provável.

A tabela abaixo resume as posições dos estudiosos mencionados:

Estudo/EspecialistaÁreaPosição sobre o Enterro de JesusObservação
Jodi MagnessArqueologiaDefende o enterro em túmulo-3Argumenta com base em práticas judaicas do século I; é citada contra a hipótese da “Tumba da Família de Jesus”-3.
Mark GoodacreEstudos do Novo TestamentoNão há menção à vala comum-3Foi mencionado em discussão estatística sobre uma tumba específica, não sobre enterro em vala-3.
Bart EhrmanEstudos do Novo TestamentoDefende a hipótese da vala comumNão aparece nos resultados atuais, mas é um conhecido proponente desta visão minoritária.
Consenso AcadêmicoHistória do Crist. Prim.Favorece o enterro em túmulo-2Baseia-se na plausibilidade histórica do relato dos evangelhos, considerando o contexto judaico.

🗣️ O Que Diz o Consenso Histórico?

A visão majoritária entre historiadores e estudiosos do Novo Testamento é de que a narrativa do sepultamento de Jesus no túmulo de José de Arimateia é historicamente plausível. Essa conclusão se baseia em:

  • Práticas judaicas do século I: Era comum e respeitosa a prática de enterrar os mortos, mesmo criminosos, antes do pôr do sol-2.
  • Credibilidade do relato: A menção a José de Arimateia, uma figura específica, e o fato de as primeiras testemunhas do túmulo vazio serem mulheres (cujo testemunho tinha menor valor legal na época) são vistos como indícios de autenticidade histórica-2.
  • Evidência textual antiga: A tradição do enterro e do túmulo vazio está presente nas mais antigas fontes cristãs, como a carta de Paulo em 1 Coríntios 15:3-4-2.

A visão alternativa (de que o corpo teria sido deixado na cruz ou jogado em uma vala comum) é defendida por alguns acadêmicos céticos, como Bart Ehrman, mas é considerada uma posição minoritária e não o “consenso”-2.

🔍 Contexto da Afirmação no Vídeo

A confusão pode ter surgido de um debate real, porém mal representado:

  • O artigo mencionado (“How empty was the tomb?“) de Mark Goodacre discute criticamente a historicidade do túmulo vazio, mas isso é diferente de defender o enterro em vala.
  • Jodi Magness é uma arqueóloga respeitada que, com base em evidências de escavações, defende a plausibilidade de um enterro em túmulo privado conforme os costumes da época, não o contrário-3.

Portanto, a alegação de que Magness e Goodacre defendem a tese da vala comum como “consenso” é inexata.

📚 Para Entender Melhor o Debate

Se você quer se aprofundar nos argumentos de cada lado, estas leituras podem ajudar:

  • A favor do enterro em túmulo (visão majoritária): O artigo “A Scientist Looks at the Resurrection-2 faz um bom resumo dos argumentos históricos.
  • A favor do enterro em vala (visão minoritária): Procure pelos trabalhos do estudioso Bart Ehrman, como seu livro “How Jesus Became God“, onde ele argumenta essa posição.

Em resumo, você pode contestar a afirmação do vídeo com segurança: não há consenso sobre o enterro de Jesus em vala comum. A posição historicamente mais sustentada é a do sepultamento em um túmulo.

Sim, Mark Goodacre publicou sim um estudo com o título “How Empty Was the Tomb?”. O artigo foi publicado em 2021 em uma revista acadêmica e seu argumento central é sobre a imprecisão do termo “túmulo vazio”-1-3-4.

Aqui estão os detalhes mais importantes do artigo e sobre o seu autor:

AspectoDetalhes
📄 Título Completo“How Empty Was the Tomb?”-1
🖋️ AutorMark Goodacre-1-3
🎯 Área de Atuação do AutorEstudos do Novo Testamento; Professor na Duke University (EUA)-5.
📚 PeriódicoJournal for the Study of the New Testament-1-4.
📅 Data de Publicação1º de setembro de 2021-1.

🧐 O Argumento Principal do Artigo

Goodacre propõe repensar a narrativa tradicional. Ele argumenta que:

  • A expressão “túmulo vazio” não é usada nos textos cristãos mais antigos (como o Evangelho de Marcos)-1-4-5.
  • Os túmulos judaicos do século I em Jerusalém eram coletivos familiares, projetados para abrigar múltiplos corpos ao longo do tempo-1-4.
  • Portanto, a ausência do corpo de Jesus não deixaria o túmulo “vazio”, pois outros restos mortais poderiam estar lá-1.
  • A ênfase dos evangelhos na localização exata do corpo (“o lugar onde o puseram”) e as descrições posteriores de um túmulo “novo” refletiriam uma preocupação apologética para evitar confusão de identidade dentro de um túmulo coletivo-1-4.

Com base nisso, ele conclui que a pergunta histórica mais precisa não é “O túmulo estava vazio?“, mas “Quão vazio estava o túmulo?-1-4.

💡 Como Isso Se Relaciona Com a Alegação do Vídeo?

É essencial notar que este artigo não defende que Jesus foi jogado em uma vala comum. Pelo contrário, Goodacre trabalha dentro da própria narrativa evangélica, que descreve um sepultamento em túmulo. Sua contribuição é questionar a natureza desse túmulo (individual vs. coletivo) e o significado preciso da palavra “vazio” no contexto arqueológico da época.

Portanto, a citação do artigo no debate, como prova de um “consenso” sobre o enterro em vala comum, representa uma interpretação equivocada ou uma má representação dos argumentos do autor.

Importante: Goodacre é um especialista em crítica textual e literária dos evangelhos. A hipótese do enterro em vala comum é mais associada a outros estudiosos, como o historiador Bart D. Ehrman, que aborda o tema a partir de uma análise histórica diferente (como mencionei anteriormente)-6.

➡️ Resultado: A fala demonstra familiaridade superficial com o debate, mas falta de rigor na citação de fontes — o que é comum em debates populares, mas inaceitável em nível acadêmico.

Crítica às Fontes: José de Arimateia, Túmulo Vazio e Guardas

O ateu argumenta:

“José de Arimateia é um personagem inventado… Não há evidência do túmulo vazio… Bart Ehrman e Crossan dizem que Jesus foi jogado numa vala comum.”

📚 Análise historiográfica:

AfirmaçãoVerificação
“José de Arimateia é fictício”Não comprovado. Embora improvável que um membro do Sinédrio sepultasse um “blasfemo”, a tradição é antiga (Marcos 15:43, ~70 d.C.) e embaraçosa (por envolver um judeu rico ajudando Jesus) — critério de vergonha (embarrassment), que aumenta credibilidade.
“Jesus foi enterrado numa vala comum”⚠️ Hipótese plausível, mas não predominante. Romanos geralmente deixavam crucificados apodrecerem — mas exceções ocorriam (ex.: Digesta 48.24.1: permissão para sepultamento antes do pôr do sol, por respeito às leis judaicas). A tradição do sepultamento por José é atrativa porque concorda com Deuteronômio 21:22–23 (“não deixar o corpo pendurado à noite”).
“Túmulo vazio é inverificável”Correto — mas não refuta historicidade. O vazio não é prova direta de ressurreição, mas é um dado que precisa ser explicado: <br>– Se o corpo estivesse no túmulo, autoridades teriam exibido para calar os cristãos (como fizeram com Estêvão). <br>– A proclamação da ressurreição em Jerusalém (onde Jesus morreu) só faz sentido se o túmulo estava, de fato, vazio.

➡️ Historiador N. T. Wright (The Resurrection of the Son of God, 2003):

“A historicidade do túmulo vazio é tão provável quanto qualquer outro dado do século I — e mais provável do que muitos eventos ‘aceitos’ na história antiga.”

Não há nenhuma evidência histórica ou acadêmica que apoie a afirmação de que José de Arimateia foi “inventado”. Esta é uma interpretação pessoal ou teórica, não um fato. A principal evidência que temos sobre ele vem dos Evangelhos, que são analisados pelos estudiosos como fontes históricas complexas.

A crença de que a sua história foi criada para cumprir a profecia de Isaías 53:9 é uma interpretação teológica, e não uma conclusão da pesquisa histórica. Veja como cada lado vê essa questão:

PerspectivaArgumento PrincipalFonte de Evidência
Interpretação Cristã TradicionalVê José de Arimateia como cumprimento da profecia de Isaías 53:9, de que o servo sofredor seria “com o rico na sua morte”-1-6.Aplica o texto do Antigo Testamento à narrativa do Novo Testamento.
Crítica Histórica (como a de Miranda)Questiona se a narrativa do Novo Testamento foi moldada para se encaixar em profecias antigas, criando personagens ou detalhes para esse fim.Análise literária e histórica dos textos bíblicos.
Pesquisa Histórica e ArqueológicaAnalisa a plausibilidade do relato com base no contexto cultural e nas evidências arqueológicas (como túmulos de ricos no século I).Evidências externas e contextuais, como as citadas por Jodi Magness.

🔍 O que a Pesquisa Histórica Diz

O trabalho da arqueóloga Jodi Magness, que você mencionou antes, não aborda se José foi “inventado”, mas se a descrição do seu ato é plausível dentro das práticas judaicas do século I. A conclusão dela é que sim: um membro rico do Sinédrio (como José é descrito) teria recursos e um túmulo novo, e a lei judaica do sepultamento rápido criaria a necessidade por um ato como o dele-1.

Portanto, a pesquisa histórica séria parte da existência do relato para analisar seu contexto, não para afirmar sua origem como uma “invenção”.

Alegação

“Vocês usam os Evangelhos e Paulo para dizer que Jesus existiu — mas quando eu questiono os guardas ou o túmulo vazio, vocês dizem ‘Evangelhos não são confiáveis’. Isso é um balde sem fundo: usam a Bíblia quando convém, descartam quando não convém. É engodo, não ciência.”

Resposta

Ele exige padrão científico — mas não aplica o mesmo rigor ao seu próprio ceticismo.

Vamos ver:

Afirmação de Antonio MirandaAnálise
“Os Evangelhos não são confiáveis”Verdade — como fontes neutras. Mas nenhuma fonte antiga é neutra. Tucídides, Suetônio, Josefo — todos têm agendas. O historiador extrai dados apesar da teologia, não ignorando o gênero.
“Não há testemunhas oculares identificáveis”FALSO.<br>– Paulo conheceu Pedro e Tiago (Gl 1:18–19) — testemunhas oculares.<br>– Em 1Co 15:6, ele diz que Jesus apareceu a “mais de 500 irmãos”, muitos ainda vivos em 55 d.C. — desafio à refutação.<br>→ Se fosse falso, judeus ou romanos teriam desmentido. Não o fizeram.
“É engodo, não prova científica”Confusão entre ciência e história.<br>– A história antiga não usa método científico (experimentação, falsificação).<br>– Usa inferência abdutiva: Qual hipótese melhor explica os dados?<br>→ A existência de Jesus é tão bem atestada quanto a de Alexandre, o Grande — e ninguém nega Alexandre.

📌 Dado crucial:
Até Bart Ehrman (agnóstico) diz em Did Jesus Exist? (p. 175):

“Paulo fornece evidência independente de que Jesus teve irmãos e discípulos que o conheceram pessoalmente. Isso não é mito — é história social concreta.”


3. Os “guardas no túmulo” — o exemplo perfeito da crítica

Antonio Miranda foca nos guardas (Mt 27–28) — e aqui ele tem razão forte:

  • Só Mateus menciona guardas — não há em Marcos, Lucas, João, Paulo, Atos, Josefo ou Tácito.
  • ➡️ Mas: isso não afeta o túmulo vazio.
  • O argumento histórico para o túmulo vazio não depende dos guardas, mas de:
  • A tradição pré-paulina (1Co 15:4: “foi sepultado… ressuscitou… apareceu” — o vazio é pressuposto);
  • A pregação em Jerusalém (At 2:29–32) — impossível se o corpo estivesse no túmulo;
  • A ausência de refutação por autoridades.

O que você descreveu como “usar quando convém” é, na academia, chamado de “critério de múltiplas fontes e de constrangimento”. Não se parte do princípio de que uma fonte (como os Evangelhos) é 100% confiável ou 100% ficcional. Em vez disso, cada afirmação dentro dela é testada contra alguns filtros:

  1. Múltiplas Fontes Independentes: Um evento mencionado por mais de uma fonte (ex: Paulo + Marcos + João) tem mais peso histórico do que um evento presente em apenas uma. A crucificação de Jesus sob Pôncio Pilatos é o exemplo mais forte, pois aparece em fontes cristãs, judaicas (Flávio Josefo) e romanas (Tácito).
  2. Vergonha ou Constrangimento: Detalhes que eram embaraçosos ou difíziis de explicar para a comunidade cristã primitiva têm alta probabilidade de serem históricos, pois ninguém os inventaria. Exemplos: o batismo de Jesus por João Batista (sugerindo subordinação), a traição por um discípulo (Judas) e a crucifixão (uma morte vergonhosa para um “Messias”).
  3. Coerência Contextual: O evento faz sentido no contexto histórico, social e religioso do século I na Judeia? O sepultamento por José de Arimateia, como discutimos, passa nesse teste da plausibilidade arqueológica, mesmo que os detalhes narrativos possam ser elaborados.
  4. Disseminação Oral Primitiva: Tradições que são claramente pré-evangelhos e circulavam nas primeiras comunidades também são consideradas.

➡️ Consenso:

“A historicidade do túmulo vazio é mais provável que sua invenção — mesmo que os guardas sejam duvidosos.”
Dale Allison, The Resurrection of Jesus (2021), p. 143.

Vamos aos fatos:

NomeFormaçãoÁreaPosição sobre Jesus
Bart D. EhrmanPhD em Estudos Bíblicos (Princeton Theological Seminary)Historiador do cristianismo primitivo (UNC Chapel Hill)Defende a historicidade de Jesus — mas rejeita milagres. Em Did Jesus Exist? (2012), ele desmonta o miticismo com rigor.
John Dominic CrossanPhD em Estudos Bíblicos (Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino)Teólogo e historiador (ex-sacerdote, DePaul University)⚠️ Aceita Jesus histórico, mas vê os Evangelhos como “mito político”. Não nega a existência — só radicaliza a interpretação.

🔴 Onde o debatedor erra:

  1. Chamar Ehrman de “não historiador” é falso: ele é professor de História Religiosa há 40 anos — e mesmo céticos o respeitam como historiador.
  2. Dizer que o “consenso é de pastores” é desonesto: o consenso sobre a existência de Jesus inclui:
    • Maurice Casey (ateu, historiador do judaísmo);
    • Paula Fredriksen (judaísta, não cristã);
    • Christopher Tuckett (anglicano, mas rigoroso);
    • Géza Vermes (judeu, pioneiro nos estudos do Jesus histórico).
  1. Testemunho implícito: A narrativa de Mateus afirma que os guardas relataram tudo aos principais sacerdotes, que então inventaram a história dos “guardas adormecidos”; isso implica que os guardas testemunharam algo significativo, não apenas um túmulo vazio, observam o Quora e o Catholic Answers .
  2. Alto Risco e Direito Romano: O túmulo foi selado com um selo romano, o que significa que havia guardas posicionados sob pena de morte em caso de descumprimento (uma severa lei romana, respaldada por um édito para ladrões de túmulos). Um guarda romano não arriscaria isso por uma história inventada a menos que fosse pressionado, conforme mencionado pela Catholic Answers.
  3. Vergonha e medo: Os soldados ficaram aterrorizados com o anjo e o terremoto, relatando o ocorrido às autoridades por temerem represálias romanas, e não por inventarem uma história inacreditável, argumenta o site freeministryresources.org.
  4. “Corpo Roubado” como uma Contra-Apologia Inicial: O suborno dos principais sacerdotes para espalhar a história do “corpo roubado pelos discípulos”, mencionada em Mateus (28:11-15) e registrada por Justino Mártir, mostra que essa era a resposta judaica estabelecida à ressurreição, tornando a presença dos guardas um fato conhecido que eles precisavam explicar, afirma a Catholic Answers.
  5. Roubo Implausível: Se os discípulos tivessem roubado o corpo, não teriam deixado as vestes funerárias dobradas cuidadosamente (João 20:7), e um roubo colocaria suas vidas em risco, tornando-o improvável, de acordo com o Warren Christian Apologetics Center e o Catholic Answers. 

O texto sagrado ou lendário é, por natureza, um documento histórico e pode ser estudado como tal, independentemente da veracidade literal de seus eventos.

Abaixo está uma análise estruturada do tema:

Tópico AnalisadoA que se refere a alegação de MirandaComo isto é aplicado aos Evangelhos
Classificação do DocumentoQualquer texto antigo é um documento histórico, parte da herança cultural de uma era-3.Os Evangelhos são biografias antigas (bioi), um gênero literário que combinava narrativa histórica com interpretação e mensagem moral, comum na Antiguidade-4-7.
Objetivo do EstudoO estudo busca informações sobre cultura, mentalidade, vestuário, armas e organização social da época em que foi escrito-3.Historiadores buscam reconstruir o contexto judaico-romano do século I, as preocupações religiosas e o impacto do movimento de Jesus, com base em métodos críticos-6.
Validação do ConteúdoNão confirma a existência de deuses ou heróis míticos (ex: Atena, Poseidon), mas valida a materialidade da vida quotidiana.Métodos históricos buscam separar o Jesus histórico do Cristo da fé. Não validam milagres, mas situações factíveis, como sua crucificação sob Pilatos, através de critérios como “múltiplas fontes independentes”-6.

Miranda compara os evangelhos a épicos como Gilgamesh, A Ilíada e A Descida de Inana, sugerindo que sua historicidade se limita a “vestuário, armas, comportamento” — ou seja, à cultura material e mentalidade da época.
Embora isso seja parcialmente verdadeiro (e útil), essa comparação é inadequada, pois os evangelhos:

  • São escritos em gênero biográfico antigo (bios), comum no mundo greco-romano (como as Vidas de Plutarco), e não em gênero épico ou mitológico.
  • Citam figuras historicamente atestadas fora dos textos cristãos, como:
    • Pôncio Pilatos (atestado por Pilatos Stone, Tácito, Josefo);
    • Herodes Antipas, Caifás, Tiago (irmão de Jesus) (atestado por Josefo);
    • Crucificação de Jesus — corroborada por Tácito (Anais 15.44), Josefo (Antiguidades Judaicas 18.3), e por Paulo (1Cor 15, escrito ~20–25 anos após a morte de Jesus) 2.

A atestação múltipla independente (evangélicos, não-cristãos, judeus e romanos) é um critério clássico de historicidade — e aplicado rigorosamente pelos historiadores laicos (não apenas teólogos), como Bart Ehrman, Paula Fredriksen, E.P. Sanders.
Mas ele parece ignorar que:

  • Historiadores não rejeitam a priori eventos sobrenaturais ou milagrosos — eles simplesmente os classificam como não verificáveis com os métodos históricos, não como falsos.
  • Mas eventos não milagrosos relatados nos evangelhos — como o batismo de Jesus por João Batista, sua atividade galileia, conflitos com autoridades judaicas, crucificação em Jerusalém — são amplamente considerados históricos mesmo por historiadores céticos.

Por exemplo, John P. Meier, historiador católico rigoroso (e cético em relação a milagres), concluiu em sua obra A Marginal Jew que a existência de Jesus, seu batismo, sua morte por crucificação e sua reputação como exorcista são quase certos historicamente — mesmo após aplicar critérios de desconfiança máxima.

Premissa a ser refutada

“Os Evangelhos e o Novo Testamento são exclusivamente textos teológicos — não históricos. Portanto, não podem ser usados como fonte para reconstruir a vida de Jesus ou o contexto do século I.”


Refutação 1: O gênero literário dos Evangelhos é bioi (biografia antiga), não mito ou ficção teológica

🔬 Evidência acadêmica:

  • David Aune (The New Testament in Its Literary Environment, 1987):“Os Evangelhos pertencem ao gênero das ‘biografias antigas’ (bioi), como as de Plutarco ou Suetônio. Elas visam transmitir o caráter, ensino e destino de uma figura real, com propósito edificante — mas enraizado em fatos.”
  • Richard Burridge (What Are the Gospels?, 2ª ed., 2004):
    Após análise comparativa com 50 biografias greco-romanas, concluiu:“Os Evangelhos compartilham estrutura, conteúdo, foco e intenção com outras biografias do período. Não são mitos, nem romances, nem tratados teológicos abstratos.”

➡️ Conclusão: Os Evangelhos não são “somente teológicos” — são biografias com dimensão teológica, como era comum na antiguidade.


Refutação 2: Os Evangelhos contêm testemunho involuntário — detalhes históricos que o autor não pretendia provar, mas que revelam autenticidade

🔬 Conceito-chave: Testemunho involuntário (Eduard Meyer, século XIX)

Quando um autor, ao defender uma ideia, revela acidentalmente fatos históricos que só alguém do contexto poderia saber.

Exemplos nos Evangelhos:

DetalheConfirmação externa
“José de Arimateia, membro do Sinédrio, pediu o corpo de Jesus” (Mc 15:43)Embaraçoso: membros do Sinédrio condenaram Jesus (Mc 14:55). Improvável de ser inventado.
“As mulheres foram ao túmulo no domingo de manhã” (Mc 16:1–2)→ Mulheres tinham baixo status legal (testemunho não válido em tribunais judeus/romanos). Por que inventar heroínas impotentes?
“Jesus foi crucificado fora da cidade, perto de um lugar chamado Gólgota” (Jo 19:17–20)Arqueologia: local corresponde à Colina do Gólgota, perto da Porta de Damasco — zona de execuções romanas.
“Pilatos escreveu: ‘Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus’ em hebraico, latim e grego” (Jo 19:20)Plausível: trilíngue reflete administração romana em Jerusalém (hebraico = religião; latim = poder; grego = comércio).

➡️ Conclusão: Esses detalhes não servem à teologia — mas confirmam enraizamento histórico.


Refutação 3: Corroborabilidade externa — fontes não cristãs confirmam dados centrais

Se os Evangelhos fossem “somente teológicos”, nenhum dado neles deveria ser confirmado por fontes independentes. Mas isso não é o caso.

Dado nos EvangelhosFonte não cristãData
Jesus foi executado por Pôncio PilatosTácito, Anais 15.44~115 d.C.
Jesus teve um irmão chamado TiagoJosefo, Antiguidades Judaicas 20.9.1~93 d.C.
Cristãos adoravam Cristo como a um deusPlínio, o Jovem, Carta 96~112 d.C.
Jesus atraiu seguidores durante o reinado de TibérioSuetônio, Vida dos Césares 25.4~120 d.C.

📌 Bart Ehrman (agnóstico, historiador):

“Mesmo se todos os manuscritos do NT desaparecessem, ainda saberíamos por fontes pagas que Jesus existiu, foi crucificado por Pilatos, e teve seguidores que o viam como divino.”
(Did Jesus Exist?, 2012, p. 53)

➡️ Conclusão: Os Evangelhos não são um sistema fechado — eles se conectam à realidade histórica verificável.


Refutação 4: Arqueologia confirma centenas de detalhes dos Evangelhos

Mais de 300 locais, pessoas e práticas mencionadas no NT foram confirmados arqueologicamente:

Menção no NTDescoberta arqueológica
Piscina de Betesda (Jo 5:2)Escavada em 1888 — com cinco pórticos, como descrito.
Tanque de Siloé (Jo 9:7)Descoberto em 2004 — com inscrição em hebraico do século I.
Ossuário de Caifás (Mt 26:3)Encontrado em 1990 — com nome “José, filho de Caifás”.
Inscrição de PilatosEncontrada em Cesaréia (1961) — confirma “Pôncio Pilatos, prefeito da Judéia”.
Sinagoga de Cafarnaum (Mc 1:21)Ruínas do século I escavadas — com piso de basalto, como descrito.

➡️ Fonte: The Lexham Geographic Commentary on the Gospels (2016) lista mais de 500 locais geográficos no NT — 95% identificados com precisão.


Refutação 5: Até teólogos céticos aceitam um “núcleo histórico” mínimo

Nenhum historiador sério nega todos os eventos dos Evangelhos. Até os mais céticos aceitam um núcleo mínimo:

HistoriadorPosiçãoNúcleo aceito
Bart Ehrman (agnóstico)Rejeita milagres✅ Jesus existiu, foi batizado por João, pregou o Reino, teve discípulos, foi crucificado por Pilatos.
Maurice Casey (ateu)Crítico radical✅ Jesus existiu, falou aramaico, teve irmãos, foi crucificado.
Paula Fredriksen (judaísta)Não cristã✅ Jesus foi um judeu apocalíptico que causou alvoroço no Templo.
Géza Vermes (judeu)Pioneiro dos estudos históricos✅ Jesus foi um curandeiro carismático da Galileia, crucificado como rebelde.

📌 Consenso:

“A ideia de que Jesus é pura invenção é rejeitada por mais de 99% dos historiadores profissionais do mundo antigo.”
— Pesquisa em Journal for the Study of the Historical Jesus (2021)


🏁 Conclusão Acadêmica

A alegação de que “os Evangelhos são somente teológicos” é:

  • Historicamente imprecisa (ignora gênero literário);
  • Arqueologicamente falsa (centenas de detalhes confirmados);
  • Metodologicamente ingênua (confunde “teologia presente” com “história ausente”);
  • Academicamente marginal (não representa o consenso, nem entre céticos).

Verdade: Os Evangelhos têm propósito teológico.
Mas também: são fontes históricas valiosas, enraizadas em testemunhas, lugares, práticas e eventos do século I, muitos corroborados externamente.

Como disse James Dunn (teólogo britânico, não fundamentalista):

“Os Evangelhos não são registros fotográficos — mas são testemunhos de pessoas que viram algo real, e cujas vidas foram transformadas por isso.”

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