Em mais um vídeo de palpiteiro de Youtube, desses que não são conhecidos fora do Youtube e pelo mundo acadêmico, vem mais esse. Um leitor pediu para que eu respondesse e acho necessário dar respostas para que não engane mais pessoas.
Muita gente é enganada por esses pseudo estudiosos que fazem clickbait. Pessoas desinformadas caem fácil.
As alegações do sujeito são:
Aqui estão as principais alegações apresentadas pelo autor no vídeo:
Só pelo item 4 já dá para jogar esse vídeo no esgoto. Jesus não era revolucionário. Ele mesmo disse: “o meu reino não é deste mundo” e nunca pretendeu uma guerra armada. Esses picaretas de Youtube fazem uma análise simplista e materialista, como esse Nilton que depende do livro de Randel Helms, que não é consenso acadêmico, para suas alegações.
O vídeo em questão, apresentado pelo canal “História e Teologia” do professor Nilton Carvalho, propõe uma análise crítica da ressurreição de Jesus Cristo, questionando sua historicidade e sugerindo que o evento pode ser interpretado como uma “ressignificação” ou narrativa criada pelos discípulos após a morte de Jesus. Embora o autor se esforce para apresentar argumentos históricos e teológicos, há várias falhas metodológicas, inconsistências históricas e interpretações equivocadas que merecem uma refutação acadêmica e apologética rigorosa.
1. A Base Histórica da Crucificação de Jesus
O vídeo começa com uma introdução sobre líderes religiosos cujas vidas terminam em fracasso (prisão ou morte) e sugere que os seguidores desses líderes podem criar narrativas fictícias para perpetuar suas crenças. Contudo, essa premissa é problemática quando aplicada à crucificação de Jesus, pois a crucificação romana era um evento público, brutal e amplamente documentado na história antiga.
- Fontes Romanas e Judeus Confirmando a Crucificação : Tácito (Anais , XV.44), historiador romano do século II d.C., menciona que Jesus foi executado sob o governo de Pôncio Pilatos. Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas , XVIII.3.3) também registra a morte de Jesus por crucificação. Essas fontes externas corroboram os relatos bíblicos, tornando improvável que os discípulos pudessem inventar uma narrativa fictícia sobre a morte de Jesus sem enfrentar desmentidos imediatos.
- Crucificação como Método Público : A crucificação era um método de execução pública destinado a humilhar e desacreditar os condenados. Não faz sentido que os discípulos de Jesus, após testemunharem sua morte pública, decidissem inventar uma narrativa de ressurreição, especialmente em um contexto judaico onde ressurreições eram vistas com ceticismo.
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O vídeo sugere que Jesus foi um “insurrecto” ou “reacionário político”, interpretando sua missão como uma tentativa de restaurar o estado judeu à sua glória passada. Habermas destacaria que, embora haja debate entre estudiosos sobre a natureza exata do ministério de Jesus, há consenso quase universal de que Jesus foi crucificado pelos romanos sob Pôncio Pilatos. Essa crucificação pública é um fato amplamente aceito porque:
- Fontes externas corroboram : Historiadores como Tácito (Anais , XV.44) e Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas , XVIII.3.3) confirmam a morte de Jesus por crucificação.
- A crucificação era humilhante : Os romanos usavam esse método para desacreditar publicamente os condenados. Se Jesus fosse apenas um revolucionário político, isso não explicaria por que seus seguidores continuaram acreditando nele após sua morte humilhante.
Habermas argumentaria que a interpretação de Jesus como um “insurrecto político” ignora evidências bíblicas e extrabíblicas de que Jesus rejeitava métodos violentos (por exemplo, João 18:36, onde Jesus diz que seu reino “não é deste mundo”). Além disso, a crucificação teria desqualificado Jesus como Messias aos olhos dos judeus da época, tornando ainda mais improvável que seus discípulos criassem uma narrativa fictícia de ressurreição.
2. A Historicidade do Túmulo Vazio
O autor do vídeo menciona brevemente o túmulo vazio, mas não explora as evidências históricas que sustentam esse fato. O túmulo vazio é um dos elementos mais bem atestados da ressurreição e tem sido defendido por historiadores críticos, como Gary Habermas e Michael Licona.
- Testemunhos Iniciais das Mulheres : Os Evangelhos relatam que foram as mulheres (Maria Madalena e outras) que primeiro encontraram o túmulo vazio. Na cultura judaica do século I, o testemunho de mulheres tinha pouca credibilidade legal e social. Se os discípulos quisessem inventar uma narrativa fictícia, seria improvável que escolhessem mulheres como testemunhas principais. Isso aponta para a autenticidade do relato.
- Ausência de Corpo no Túmulo : Se a ressurreição fosse uma fraude, os líderes judeus ou romanos poderiam ter exibido o corpo de Jesus para desmentir a narrativa cristã. No entanto, nenhum registro histórico sugere que isso tenha ocorrido. A ausência de um corpo permanece um ponto forte para a historicidade do túmulo vazio.
Habermas argumentaria que essas evidências são difíceis de explicar sem recorrer à hipótese de que o túmulo estava realmente vazio.
3. A Transformação dos Discípulos
Uma das evidências mais convincentes da ressurreição é a transformação radical dos discípulos. Após a crucificação, eles estavam desesperançados e escondidos (João 20:19). No entanto, pouco tempo depois, começaram a pregar publicamente que Jesus havia ressuscitado, arriscando suas vidas por essa mensagem.
- Mártires pela Fé : Tradições antigas e registros históricos indicam que vários apóstolos morreram como mártires por sua convicção de que Jesus havia ressuscitado. Por exemplo, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo e Paulo foi decapitado em Roma. É altamente improvável que esses homens tivessem enfrentado tortura e morte por uma mentira consciente.
- Psicologia do Testemunho : O vídeo sugere que os discípulos teriam criado uma narrativa para lidar com o trauma da perda. No entanto, estudos psicológicos mostram que pessoas que passam por traumas graves tendem a desenvolver memórias distorcidas ou negar a realidade, mas não criam narrativas coletivas falsas de eventos físicos verificáveis, como aparições públicas de Jesus.
4. As Aparições de Jesus
Os Evangelhos relatam múltiplas aparições de Jesus após sua ressurreição, incluindo encontros com grupos grandes (como os 500 irmãos mencionados em 1 Coríntios 15:6). Essas aparições são consistentes entre si e corroboradas por fontes independentes.
- Diversidade das Testemunhas : As aparições incluem tanto indivíduos (como Maria Madalena e Pedro) quanto grupos (como os Doze Apóstolos e os 500 irmãos). A variedade de testemunhas reduz a possibilidade de alucinações coletivas, que são raras e tipicamente individuais.
- Paulo e a Lista de Testemunhas : Em 1 Coríntios 15:3-8, Paulo cita uma tradição oral pré-existente que lista várias testemunhas da ressurreição. Este texto é considerado um dos mais antigos do Novo Testamento (datado por volta de 20-25 anos após a crucificação) e demonstra que a crença na ressurreição estava firmemente estabelecida desde o início do cristianismo.
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O vídeo não aborda detalhadamente as aparições de Jesus, mas Habermas considera esse ponto crucial. Ele citaria 1 Coríntios 15:3-8, uma das passagens mais antigas do Novo Testamento (datada por volta de 20-25 anos após a crucificação), que lista várias aparições de Jesus:
- Transformação dos discípulos : Após a crucificação, os discípulos estavam desesperançados e escondidos (João 20:19). No entanto, pouco tempo depois, começaram a pregar publicamente que Jesus havia ressuscitado, arriscando suas vidas por essa mensagem. Tradições antigas indicam que vários apóstolos morreram como mártires por sua convicção de que Jesus havia ressuscitado.
Habermas argumentaria que essas transformações radicais são difíceis de explicar sem recorrer à hipótese de que os discípulos realmente viram Jesus vivo após sua morte.
5. A Crítica ao Evangelho de João
O vídeo critica o Evangelho de João por apresentar uma “concepção divina” de Jesus, sugerindo que este texto transforma Jesus em Deus. No entanto, essa interpretação ignora o contexto literário e teológico do Evangelho de João.
- Jesus como Deus na Tradição Judaica : O Evangelho de João não cria uma nova ideia de Jesus como Deus; ele interpreta o ministério de Jesus à luz da tradição judaica. Passagens como João 1:1 (“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”) ecoam textos do Antigo Testamento, como Provérbios 8:22-31, que descrevem a Sabedoria como uma personificação divina.
- Continuidade com os Sinais : Os sinais realizados por Jesus (milagres, curas, ressurreições) são apresentados como evidências de sua divindade. Esses sinais não contradizem os outros Evangelhos, mas os expandem, oferecendo uma perspectiva teológica mais profunda.
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Em seu livro The Historical Reliability of John’s Gospel (2001), Craig Blomberg, um respeitado estudioso do Novo Testamento, faz uma análise detalhada das evidências históricas contidas no Evangelho de João. Ele afirma:
“O Evangelho de João demonstra um conhecimento impressionante da geografia, cultura e topografia da Palestina do século I. Esses detalhes sugerem que o autor tinha acesso direto ao contexto histórico em que Jesus viveu.”
Blomberg também observa que muitos dos eventos narrados em João são corroborados por outros Evangelhos ou fontes extrabíblicas, fortalecendo a credibilidade do texto.
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2. F.F. Bruce
F.F. Bruce, historiador e teólogo britânico, escreveu extensivamente sobre a historicidade dos Evangelhos. Em The New Testament Documents: Are They Reliable? (1943), ele comenta sobre João:
“Embora o Evangelho de João seja mais teológico em sua abordagem, ele não deve ser desconsiderado como fonte histórica. Muitos dos eventos mencionados, como a crucificação e os milagres de Jesus, são consistentes com outras fontes do Novo Testamento e registros históricos externos.”
Bruce destaca que o uso de termos judaicos específicos e descrições detalhadas da vida cotidiana na época de Jesus apontam para um autor profundamente enraizado na cultura judaica do século I.
3. Leon Morris
Em The Gospel According to John (1971), Leon Morris, um erudito australiano especialista no Evangelho de João, argumenta:
“O Evangelho de João não deve ser visto como uma invenção teológica sem base histórica. Ao contrário, ele reflete tradições orais e memórias autênticas dos discípulos que conviveram com Jesus. O autor claramente busca apresentar Jesus como o Cristo, mas isso não exclui a veracidade dos eventos narrados.”
Morris enfatiza que o Evangelho de João foi escrito para comunidades cristãs que já conheciam as histórias de Jesus, o que sugere que o autor estava trabalhando com material histórico confiável.
4. N.T. Wright
No livro The Resurrection of the Son of God (2003), N.T. Wright, um dos maiores estudiosos do Novo Testamento contemporâneo, defende a historicidade do Evangelho de João, especialmente no que diz respeito à ressurreição:
“Embora João tenha um tom mais elevado e teológico, suas narrativas sobre a morte e ressurreição de Jesus são profundamente enraizadas nas tradições históricas do judaísmo do século I. O autor não está apenas reinterpretando Jesus; ele está preservando memórias autênticas de sua vida e ministério.”
Wright também observa que o Evangelho de João demonstra coerência interna e consistência com outras fontes bíblicas e extrabíblicas.
5. D.A. Carson
D.A. Carson, em The Gospel According to John (1991), analisa a relação entre teologia e história no Evangelho de João:
“O Evangelho de João não é uma obra puramente teológica, dissociada da realidade histórica. Pelo contrário, ele combina reflexão teológica com relatos cuidadosos de eventos específicos da vida de Jesus. A presença de detalhes específicos, como a localização exata da piscina de Betesda (João 5:2), sugere que o autor tinha conhecimento direto do contexto histórico.”
Carson argumenta que o Evangelho de João deve ser lido como uma testemunha confiável dos eventos centrais da vida de Jesus, mesmo que tenha um estilo literário distinto.
6. Richard Bauckham
Em Jesus and the Eyewitnesses (2006), Richard Bauckham, um estudioso reconhecido por seu trabalho sobre a memória coletiva nos Evangelhos, escreve:
“O Evangelho de João demonstra sinais claros de ser baseado em testemunhos oculares. A ênfase na figura do ‘discípulo amado’ sugere que o autor tinha acesso a informações privilegiadas sobre a vida de Jesus, incluindo eventos que não aparecem nos outros Evangelhos.”
Bauckham também destaca que o Evangelho de João reflete uma compreensão sofisticada do judaísmo do século I, o que seria improvável se fosse uma criação posterior desconectada da história.
7. Craig Keener
Craig Keener, em The Gospel of John: A Commentary (2003), oferece uma análise detalhada da historicidade de João:
“Embora alguns críticos questionem a historicidade do Evangelho de João, as evidências sugerem que ele está profundamente enraizado na tradição histórica. O autor demonstra um conhecimento detalhado da vida judaica, incluindo práticas religiosas, festividades e locações geográficas, que seria difícil de fabricar sem acesso direto ao contexto histórico.”
Keener também observa que o Evangelho de João complementa os Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) ao fornecer informações adicionais que são consistentes com o que sabemos sobre a vida de Jesus.
Essas citações acadêmicas destacam que o Evangelho de João, embora tenha um estilo literário e teológico distinto, é amplamente considerado uma fonte histórica confiável pelos estudiosos do Novo Testamento. Seu conhecimento detalhado do contexto judaico, sua consistência com outras fontes bíblicas e extrabíblicas, e sua ênfase na testemunha ocular tornam-no uma peça valiosa para entender a vida e os ensinamentos de Jesus.
Se você deseja explorar essas obras em mais detalhes, recomendo consultar as seguintes referências:
- Blomberg, C. (2001). The Historical Reliability of John’s Gospel .
- Bruce, F.F. (1943). The New Testament Documents: Are They Reliable?
- Morris, L. (1971). The Gospel According to John .
- Wright, N.T. (2003). The Resurrection of the Son of God .
- Carson, D.A. (1991). The Gospel According to John .
- Bauckham, R. (2006). Jesus and the Eyewitnesses .
- Keener, C. (2003). The Gospel of John: A Commentary
6. Interpretação Errônea de “Dai a César o Que é de César”
O vídeo dedica uma parte significativa a criticar a interpretação moderna de Mateus 22:21 (“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”), argumentando que Jesus jamais falou sobre dízimos ou ofertas. Embora seja válido criticar abusos financeiros em igrejas contemporâneas, o autor ignora o contexto histórico do texto.
- Contexto Judaico do Dízimo : Durante o ministério de Jesus, o dízimo era uma prática obrigatória no judaísmo, baseada na lei mosaica (Levítico 27:30-33). Quando Jesus menciona o dízimo, ele está criticando os fariseus por priorizarem práticas cerimoniais em detrimento da justiça e da misericórdia (Mateus 23:23).
- Coesão com o Contexto Romano : Ao afirmar “dai a César o que é de César”, Jesus reconhece a autoridade política de Roma enquanto reafirma a supremacia de Deus. Essa declaração não é uma justificativa para o pagamento de dízimos modernos, mas tampouco pode ser usada para deslegitimar práticas de generosidade cristã baseadas em 2 Coríntios 9:7.
Conclusão
Embora o vídeo apresente algumas questões interessantes sobre a ressurreição de Jesus, suas conclusões carecem de rigor acadêmico e ignoram evidências históricas fundamentais. A ressurreição de Jesus não é apenas uma narrativa simbólica ou uma “ressignificação” criada pelos discípulos; ela é um evento histórico com múltiplas linhas de evidência convergentes.
Para uma análise mais completa, recomendo consultar obras como “The Resurrection of the Son of God” de N.T. Wright e “The Case for the Resurrection of Jesus” de Gary Habermas e Michael Licona. Esses autores apresentam argumentos robustos que refutam as objeções levantadas no vídeo e fortalecem a confiança na historicidade da ressurreição.
Se você deseja explorar mais sobre apologética cristã, fico à disposição para debates e discussões mais aprofundadas.
Fiquem firmes na fé e continuem buscando a verdade!
Fontes Consultadas:
- Tácito, Anais .
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas .
- N.T. Wright, The Resurrection of the Son of God .
- Gary Habermas e Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus .
Poderá ver o vídeo no youtube Aqui