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Por que choras?

1456489_10201819733927955_3355201_nNa nossa sociedade onde a felicidade é pré-fabricada, vendida e embalada pra presente, onde a superficialidade toma o lugar da reflexão e análise de realidades, ficar melancólico ou triste é algo inaceitável. É como se comemorar e festejar fosse uma obrigação, enquanto lembrar do passado fosse algo condenável digno somente dos perdedores. Mas há algo de muito importante a se dizer a esse respeito.
Uma das maiores perdas para um ser humano e razão do mais alto grau de estresse e depressão é a perda de um ente querido, conforme pesquisas atestadas por profissionais das áreas de psicologia e psiquiatria. Certamente que muitos perderam não somente dinheiro, emprego, bens ou amizades, este ano, mas também pessoas amadas, que vieram a falecer.
Pessoas que lidam com o luto são muitas vezes, nessas épocas do ano, compelidas a forçar uma alegria que não estão sentindo, dando ouvidos a frases feitas que as encorajam a ir em frente, pensar só no futuro e esquecer o passado. A maior parte de tais comentários repetidos à exaustão está mascarada de boa intenção, mas a verdade é que os outros preferem não ter de lidar com os sentimentos complexos e duros de quem está passando por um momento de profunda dor.
Lembrar-se de quem amamos e se foi deste mundo não é auto-comiseração, mas sim ter orgulho de um passado que fez quem nós somos.
As rochas frias não são conscientes dos golpes incessantes recebidos do mar, por isso também não podem saber o quanto são belas.
As árvores retorcidas pelo chicotear do vento, ao longo de seu crescimento, subsistem sem se dar conta do encantamento que são capazes de suscitar.
As lagunas transparentes aprisionadas nos anéis de corais já não se lembram de quando a terra foi rasgada sem dó nem piedade por um colossal vulcão e tampouco se recordam de quando este mesmo vulcão foi pouco a pouco sendo engolido pela mesma força que lhe fez brotar.
Quando estão adornando um pescoço qualquer, as pérolas não podem contar a dor que se fez presente no interior das ostras, mas seu brilho testemunha o sofrimento agonizante de um ser vivo lutando para se proteger de um intruso e que fez um esforço descomunal para envolver a substância causadora da dor em camadas e camadas de nácar. As ostras certamente sabem o que fazer com a dor delas, mas o resultado dessa dor é para sempre lembrado como algo belo.
Entretanto, é relegado apenas a nós, seres humanos, o prazer de contemplar todas as coisas e admirar a beleza da criação e do que foi moldado pelo sofrimento.
Herdamos do divino a consciência do belo e o prazer da contemplação, “pois viu Deus tudo quanto criara e eis que era muito bom”.
Ele, ciente de tudo, certamente sabia que seu coração seria ferido pelo homem, incontáveis vezes, mas persistiu no plano de mandar seu filho em sacrifício pela nossa remissão, para que Nele, por Ele e para Ele fossem todas as coisas e nenhum sofrimento em vão, se Nele somos mais que vencedores. O capítulo final certamente vale a pena.
Deus, como nós, se lembra de tudo, se alegra, ama e sofre. Não sofreríamos também nós?
Nossa missão na Terra, muitas vezes, é mostrar o que persiste quando milagres não acontecem, quando nada antinatural freia a força do vento ou das ondas do mar. Só assim a beleza da fé pode ser revelada. O milagre maior é sobreviver em meio às adversidades. Nossa gratidão por uma graça imerecida se revela no amor que ainda podemos dispensar, através de nossas atitudes e, apesar das dores acumuladas, mostrar que ainda podemos sorrir, viver e fazer brilhar em nós aquele que venceu o mundo e manter acesa a chama da esperança e da bondade, para que outros tenham o prazer de contemplar a beleza das rochas, das árvores, das ilhas, das pérolas e das nossas vidas.
Tudo que é belo ou tem qualquer significância no mundo, ontem e hoje, foi produzido pela dor, do contato íntimo com a vida, no mergulho em seus mais profundos recônditos e não no boiar confortável em sua superfície.
Só então podemos repetir a Deus as palavras de Jó: “Antes te conhecia de ouvir falar, mas agora meus olhos te veem”.
Ver é consciência. Ver não é ilusão. Ver não é negação. Ver não é esquecimento. Ver não é finito. Ver não é limitado. Ver é contemplar. Ver é sentir. Só quem sabe ver, sabe compreender e amar. Consegue então exalar o perfume da essência de Deus, que é o amor. O amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade”.
É por isso que o amor não esquece jamais. É por isso que quem sofre não morre de verdade. É por isso que quem não é capaz de amar pode até viver sem sofrer, mas nunca terá existido de verdade, nem subsistirá.
Porque não há dom mais precioso que o amor. Porque “ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, nada seria. Seria como o sino que ressoa”, feito de ferro frio e sem vida, capaz apenas de repercutir o impacto de uma força exterior, sem ter nunca nada a dizer. Iguala-se, assim, às rochas frias. Tão belas e tão tristes. Como é triste não saber! E mais triste que perder é esquecer.
Lembrar pode doer porque conhecemos em parte. Quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será aniquilado. Agora vemos como por um espelho, mas então veremos face a face.
Agora conheço em parte, por isso sofro, mas conhecerei como se deve, se em mim permanecer o amor. Em 2014, faça tudo com amor. O amor pode não te poupar do sofrimento, mas certamente te livrará da verdadeira morte.

Por: Adriana Polari

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